Ainda menino, entendeu o que era saudade. A morte da avó paterna, com quem havia sido criado, trouxe cedo a dolorosa sensação de um amor ausente. Anos mais tarde, já no Rio de Janeiro, Jefferson Schroeder viveu por 11 anos com a avó materna. E também precisou se despedir dela. Do convívio com as matriarcas ficaram as vozes, os gestos, as lembranças e uma pergunta: para onde vão as pessoas que a gente ama quando deixam de estar aqui?
É dessa inquietação que nasce “Onde estão as pessoas que você amou”, que estreia nesta terça-feira (15), no Teatro Café Pequeno, Leblon, para apenas seis apresentações. Em entrevista ao NEW MAG, Jefferson fala sobre a criação do solo, a saudade das avós, as 17 vozes que leva ao palco e até os impactos da inteligência artificial em seu ofício.
A história do espetáculo começou a ser desenhada em 2008, durante uma oficina de João Falcão. Ali, ele propôs a cena de um neto que visitava a avó cega e criava diferentes vozes para ela. Mais tarde, uma conversa com Fábio Porchat ajudou a encontrar um caminho para colocar todo mundo na mesma trama.
— Por anos fiquei apaixonado por essa ideia. Falei: “João, eu quero fazer uma peça.” Fui até a Bahia encontrar com ele. Depois comentei com o Fábio, e ele disse: “Você tinha que colocar um aniversário, um velório, uma ocasião em que todos aparecem” — lembra Jefferson, que, em 2018, viralizou ao lado de Porchat com um vídeo de camarim em que dava voz à Kate, a dubladora do “Oh, meu Deus”, sua personagem mais conhecida.
O viral jogou luz sobre uma habilidade cultivada desde garoto, em Canoinhas (SC), mas ele já tinha estrada. Aos 17, veio para o Rio estudar na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e construiu uma carreira no teatro, cinema, TV, publicidade e na internet. As vozes que habitavam sua cabeça desde a infância acabaram tornando-se a sua marca.
Entre as referências citadas na trajetória estão Jefferson Miranda, Celina Sodré e Miwa Yanagizawa, artistas que trabalham a partir da dificuldade. E, quando perguntado sobre como administra tantos personagens ao mesmo tempo, ele fala menos de controle e mais de entrega.
— Eu busco o abismo na atuação, esse lugar em que o ator se solta. Ao mesmo tempo, você está administrando câmera, luz, texto, marcação… Existe um momento em que precisa se deixar ir — explica.
Fora de cena, a cabeça também não para. Jefferson se assume ansioso e encontra na criação uma forma de aliviar a pressão. Desenha, pinta e escreve. Autor de “O ponto” (Editora Letramento, 2019), agora prepara o segundo livro, também atravessado pela morte assim como o texto que escreveu para o espetáculo.
— Esse livro já me salvou em vários momentos. Tinha dias em que eu estava para baixo e pensava: “Vou trabalhar no livro”. Depois de escrever, vinha uma vontade de viver muito grande. Eu mandava mensagem para os meus amigos, dizia que estava com saudades — conta.
O mesmo Jefferson que encontrou na internet uma vitrine para suas muitas vozes é capaz de olhar para a tecnologia sem fatalismo. Nem mesmo a inteligência artificial tira seu otimismo. Mesmo ela sendo capaz de reproduzir uma de suas principais ferramentas de trabalho: a voz. O avanço das máquinas não o amedronta.
— Claro que me preocupo, mas não piro. Vai chegar um momento em que as empresas vão querer dizer: “Isso aqui foi feito por um artista”. Uma colcha de fuxico feita por uma pessoa vai valer mais, assim como uma pintura, um livro. Quanto mais a tecnologia cresce, mais o humano ganha força — acredita.
Créditos: Érica Magni (texto) e Edu Rodrigues (foto)





