Para Luisa Arraes, a atuação nunca foi uma simples ocupação, mas um exercício de entrega, criação e liberdade. Criada nos bastidores do audiovisual brasileiro — ela é filha do cineasta Guel Arraes e da atriz Virgínia Cavendish —, Luisa transformou a herança familiar em uma trajetória própria, marcada pela disciplina, pelo desejo constante de contar as próprias narrativas. Isso sem falar da versatilidade de quem transita com facilidade entre o teatro, o cinema, a escrita e a direção. Das nuances poéticas do sertão — onde viveu a marcante Diadorim na adaptação cinematográfica de “Grande Sertão: Veredas” — à sensibilidade do humor, a atriz demonstra uma capacidade única de habitar personagens complexas. Em seu mais recente projeto no cinema, a comédia “Muito Prazer”, dirigido por Jorge Furtado, sob a tutela de quem voltou a trabalhar, Luisa dá vida a Grace, personagem que mergulha nas contradições da exposição digital, da privacidade e da ingenuidade em uma trama tão leve quanto provocativa. Nesta entrevista ao NEW MAG, Luisa reflete sobre o processo criativo ao lado do diretor, analisa o desafio de se posicionar como mulher no audiovisual e fala sobre a maturidade de escrever e dirigir seus próprios projetos. A atriz também comenta a expectativa e a responsabilidade que antecede um dos maiores papéis de sua carreira: a inesquecível Cássia Eller (1962-2001) na cinebiografia da cantora, cujas filmagens começam no próximo mês.
O filme “Muito Prazer” aborda câmeras escondidas e a venda de vídeos íntimos. Como foi interpretar uma personagem inserida em uma história que toca em questões tão atuais sobre privacidade e exposição na internet?
O filme é muito atual justamente porque fala desse perigo do mundo digital. A memória humana é seletiva, pode esquecer ou transformar uma lembrança, mas a internet não: o que você coloca lá pode ficar para sempre. E uma imagem ou uma informação fora de contexto pode destruir a vida de uma pessoa. O humor permite abordar isso com algum distanciamento, sem transformar o assunto em algo pesado ou constrangedor. A Grace tem certa ingenuidade em relação às consequências do que está fazendo, mas é justamente a partir dela que o filme consegue falar de privacidade, sexualidade e exposição de uma forma leve, sem banalizar a violência que existe na invasão da intimidade.
Você já trabalhou com Jorge Furtado em outros projetos no cinema e na televisão. Como essas experiências com ele contribuíram para a sua formação como atriz e para a maneira de construir suas personagens, como a própria Grace?
Trabalhar com o Jorge é um dos maiores privilégios do mundo. Ele tem um jeito muito artesanal, humano e dedicado de fazer cinema. Em “Muito Prazer”, ficamos dois meses em Porto Alegre ensaiando, lendo o texto, vendo filmes e pesquisando referências. É um processo em que a gente passa o dia inteiro respirando aquele universo. O Jorge chega com um texto impecável, mas também dá liberdade aos atores. Ele sempre cita como referência “Estude muito, esqueça tudo”, princípio atribuído ao psicanalista Jacques Lacan. A gente ensaia, constrói uma base muito sólida e, na hora de filmar, pode improvisar e propor sem medo. Isso foi fundamental para encontrar a Grace, porque ela tem uma lógica muito particular, quase nonsense, mas acredita completamente em tudo o que diz. O humor vem dessa verdade.
O anúncio de que você vai interpretar a Cássia Eller gerou uma expectativa gigante. A própria Maria Eugênia, viúva da cantora, pontuou que você tem essa mistura de força e delicadeza. Como foi para você quando soube que viveria a Cássia no cinema?
Participei de um processo de testes que durou cerca de três meses, com a participação de 200 atrizes, então foi um caminho longo, de muita entrega. Receber a notícia de que eu tinha sido escolhida foi muito emocionante e, ao mesmo tempo, assustador, porque interpretar Cássia é um desafio imenso.
O diretor Diego Freitas reforçou que o foco não é cair na caricatura ou na imitação de trejeitos, mas capturar a “alma”. O Chico Chico de alguma forma te ajudou nessa preparação?
É mais difícil quando as pessoas já têm alguma referência, sem dúvida. É como fazer uma estória baseada em um livro muito amado: o público já tem uma ideia formada na cabeça, e é preciso lidar com isso. Certamente, é um desafio a mais.
Você viveu magistralmente no cinema Diadorim, personagem de “Grande Sertão: Veredas”, obra que completa 70 anos em 2026, além de ter participado da adaptação do livro para o teatro. O que essa experiência representou para você?
Eu já estava mergulhada havia muitos anos no universo de “Grande Sertão: Veredas” por causa da peça, embora não interpretasse Diadorim naquela montagem. Quando veio o filme, foi um encontro novo e muito profundo com aquela personagem.
Sendo filha de Guel Arraes e Virgínia Cavendish, você cresceu dentro do meio do audiovisual brasileiro. Em que medida esse legado familiar serviu como uma escola para construir a sua própria identidade artística?
É difícil imaginar que eu pensaria em outra profissão quando todas as minhas referências estavam ligadas à arte. Desde criança, eu queria escrever, montar e fazer peças. Crescer nesse ambiente também me mostrou muito cedo que o trabalho artístico exige muita disciplina, estudo ininterrupto e capacidade de ouvir.
Você começou a escrever e atuar ainda muito jovem e, hoje, também se aventura pela direção e pelo roteiro. Em que momento você percebeu que não queria apenas interpretar histórias dos outros, mas também criar as suas próprias?
A escrita sempre esteve muito ligada ao meu começo. Desde criança, eu queria escrever e montar peças. Depois, fui entendendo que criar as minhas próprias histórias também era uma maneira de construir a vida artística que eu desejava, sem ficar apenas esperando que alguém me chamasse para um papel. Quando dirigi pela primeira vez, percebi o quanto gostava de acompanhar todas as etapas e de ter aquela história nas mãos. É intenso, parece que você vai ter um infarto, mas eu amei. Escrever e dirigir se tornaram fundamentais para ir atrás das histórias que quero contar. Não pretendo abandonar a atuação, porque amo interpretar, mas quero continuar atuando, escrevendo e dirigindo. Essa combinação é a estrutura da vida artística que desejo ter.
Como mulher, você sente que precisou aprender a se posicionar de uma maneira diferente ao longo da carreira para ser ouvida e respeitada dentro do audiovisual?
Ser mulher é um desafio diário, e no audiovisual não é diferente. É algo muito estruturante na nossa sociedade.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Maria Magalhães (imagem)





