Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Quando se trata de Christina Oiticica, o dito popular não poderia ser mais assertivo. Casada com o escritor e imortal Paulo Coelho há quase cinco décadas, Christina é mesmo grande. E o adjetivo vale tanto para a cidadã quanto para a artista visual, dona de um estilo personalíssimo. Ela e Paulo viviam nos Pirineus franceses quando um fato mudou a relação da artista com seu ofício. Pintando ao ar livre, passou a ter na Mãe Natureza mais do que uma aliada; uma colaboradora. E tais interferências podem vir do solo, como numa exposição realizada em 2004, ou até de um lago. Isso mesmo. Estiveram submersas por três meses parte das obras de “When the Sky invides the Earth” (Quando o Céu invade a Terra), mostra que inaugura no dia 12 de setembro na Verbania, comuna às margens do lago Maggiore, na Itália. No dia desta entrevista, realizada por telefone, a artista não tinha ainda ideia de como encontraria as obras e vivia um misto de apreensão e curiosidade. “O tempo tem o poder de transformar tudo”, pondera ela, digna representante de uma geração de mulheres – hoje na casa dos 70 anos – que revolucionou costumes e contribuiu à emancipação feminina. Longe de deitar nos louros, ela sabe que há muito por fazer: “Mulheres estão morrendo em muitos lugares”. A seguir, Christina fala da perseverança na arte (“Enquanto estiver viva vou realizar algo”), incensa colegas como Adriana Varejão e Vik Muniz, opina sobre o futuro no mundo colapsado de hoje, confessa-se saudosa do Brasil e celebra a parceria firmada com Paulo Coelho. “Ele é mais sensível do que crítico”, avalia. E ninguém melhor do que ela para sabe-lo.
A natureza e o tempo são colaboradores importantes nas tuas criações. E isso traz peculiaridades às tuas obras. Foi difícil encontrar essa estética?
A parceria com a Natureza tem sido constante de uns tempos para cá. Em “As quatro estações”, exposição que fiz em 2004, as telas ficaram um tempo enterradas e sujeitas às interferências do solo e do tempo. E tudo isso começou de uma maneira inusitada. Paulo e eu morávamos num hotel nos Pirineus franceses. O quarto não era grande, e eu usava a sala da suíte para trabalhar.
O Paulo precisava de um computador somente enquanto você lidava com tintas, cavaletes…
A sala ficava uma lambança só, sem falar nos cheiros deixados por algumas das tintas e pelos solventes. O jeito foi ir para a rua, e acabei fazendo meu ateliê no bosque próximo a hotel. Numa ocasião, deixei as telas secando de um dia para o outro e, no dia seguinte, vi que traziam interferências daquele ambiente e da própria Natureza, como folhas levadas pelo vento, essas coisas. Num primeiro momento, fiquei transtornada, mas fui entendendo que havia ali um diferencial. O fato de ter um ateliê num ambiente fora das quatro paredes foi importante para mim. E a terra tem esse poder de fecundar, é uma Grande Mãe e não à toa é associada à Imaculada Conceição. A Natureza te surpreende sempre. Algumas telas acabaram danificadas enquanto que outras trouxeram interferências inimaginadas.
O novo trabalho surgiu de um sonho… A sua sensibilidade está aberta às epifanias ou às manifestações como a do subconsciente?
Meu trabalho está muito relacionado com a intuição e tenho uma conexão com o Invisível. Durante um tempo não tinha essa consciência, e as coincidências surgiam e mostravam que eu deveria persistir numa determinada ideia ou fazer valer minha intuição.
Você já enterrou obras no solo amazônico, já deixou o clima dos Pirineus interferir em suas obras. O que um lugar precisa ter para te cativar?
Faço de acordo com as minhas circunstâncias e com as dos lugares que escolho ou aos quais sou levada. No caso da exposição de agora, as obras ficaram submersas em um lago por três meses. Três meses é tempo demais em se tratando de água. Isso me deixa apreensiva por um lado, mas faz parte deste processo que escolhi seguir.
A arte brasileira vem alcançando mais e mais visibilidade no exterior e muito disso vem de mulheres como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Laura Lima. Esse reconhecimento demorou ou veio no tempo certo?
Tudo tem seu tempo certo. A arte brasileira é vivaz. Temos no Brasil excelentes artistas, homens e mulheres, de diferentes gerações. Adriana Varejão é maravilhosa. O Vik Muniz também, com um trabalho reconhecido mundialmente. Há atualmente na Europa um interesse enorme pela Tarcila (a pintora Tarcila do Amaral, um dos principais nomes do Modernismo brasileiro), cujo legado tem motivado diferentes mostras, todas prestigiadas. As coisas acontecem quando têm de acontecer.
Você vem de uma geração de mulheres que mudou padrões de comportamento no Brasil. Como vê essa escalada da violência contra a mulher no nosso país?
Há um retrocesso em relação às conquistas femininas, não somente no Brasil, mas no mundo todo. As mulheres estão sendo mortas na Espanha, na França, na Suíça, em muitos outros lugares e em todas as classes sociais. A Lei Maria da Penha é uma conquista importantíssima. Hoje, esse tema é debatido com mais abrangência e, durante muito tempo, isso não foi possível. Muita coisa ainda precisa mudar. A mulher precisa ter coragem para fazer valer seus direitos. Muitas vezes isso é difícil. O espectro da violência é grande: há a violência física, a psicológica, a moral e outras mais. Sou positiva em relação a uma melhoria, mas há ainda muita coisa para se fazer.
Como companheiro, Paulo é um crítico de arte severo ou um curador sensível às tuas ambições artísticas?
Paulo é mais sensível do que crítico. Há momentos em que ele opina mais e outros em que observa mais. Ele foi primordial durante o processo de criação de “As quatro estações” (mostra exibida por Christina no Brasil em 2004). Trocávamos muitas ideias durante nossas caminhadas, e ele próprio chegou a me filmar trabalhando. Quando fui trabalhar no Japão, ele não pôde ir junto, mas me incentivou a realizar aquilo a que me propusera fazer. O Paulo me incentiva muito. E ele próprio acaba se apegando a algumas obras. Ele ficou triste, uma vez, por uma tela da qual gostava ter sido vendida (risos).
Você fica mais apegada a algumas obras ou exerce o desapego com todas?
Tenho comigo um trabalho de cada uma das minhas fases artísticas. E isso não impede que eles sejam expostos eventualmente, mas não são colocados à venda.
Você e Paulo estão juntos há 46 anos. O que é mais prazeroso de conquistar numa relação longeva: a parceria, a confiança ou a admiração?
A admiração é muito importante. Parceria e confiança também. As três são importantes. A admiração, quando ela se renova, é gratificante e, talvez por isso, ela nos exija atenção constante. Digo que o Paulo não se casou com uma mulher, mas com várias, pois sou múltipla. As pessoas se transformam com o tempo. O tempo tem o poder de transformar tudo, mas a nossa essência se mantém.
A Europa tem sofrido com incêndios de grandes proporções em razão das mudanças climáticas. Você é otimista ou realista em relação ao futuro da humanidade?
Sou otimista, ainda que isso seja cada vez mais difícil. A situação geopolítica no Planeta não é das melhores: há as guerras e outros fatores que acabam afetando a Natureza como um todo. E a Natureza é muito mais forte do que a gente. A sensação é a de que não avançamos: o desemprego está aí, a violência não recrudesce… A própria tecnologia facilita a vida, mas tem suas incongruências. Para colocar uma carta no correio aqui é necessário cumprir antes um protocolo pela internet. Chega a ser engraçado isso. Vamos nos adaptando a essas circunstâncias. A questão das mudanças climáticas é de fato preocupante. Dia desses, o termômetro da rua marcava 53 graus. Fiz questão de fotografar, inclusive. Há pessoas empenhadas em reverter esse quadro, mas há muito por fazer.
Há um tempo que você não vem ao Brasil. O que te dá mais saudade do país?
Morro de saudades do Brasil. Uma coisa que adoro é tomar açaí. Costumava frequentar um restaurante típico de comidas do Norte em Copacabana…
O Arataca?
Exatamente. Adoro o Arataca. E do Açaí que gosto é aquele tradicional, tá? O que vem misturado com aquela farinha grossa. Adoro a culinária brasileira. De vez em quando invento de preparar alguma coisa, mas o sabor não é o mesmo.
Tem planos de vir ao Brasil?
Acho difícil. Tenho um irmão e uma irmã no Brasil. Meus sobrinhos estão espalhados e alguns vivem aqui na Europa. Paulo tem gostado cada vez menos de viajar.
Mas vocês também já viajaram o mundo, né?
Nossa! Acho que o Paulo deu a volta ao mundo várias vezes. Conhecemos a França inteira. O mesmo aconteceu com os Estados Unidos. E fomos ao Japão algumas vezes também. Em vários desses lugares vivemos experiências únicas. Estivemos muitas vezes em Lourdes, na França. Fizemos o Caminho de Santiago de Compostela muito antes de ele ficar conhecido.
Vocês são vizinhos da atriz Anouchka Delon, filha de Alain Delon. Costumam trocar ingredientes como é comum no Brasil?
Aqui é diferente. Ela é muito afável e tem um cachorro que é uma graça, mas falamos somente o essencial. Não temos nos visto ultimamente. Ela tem ficado mais na França.
O que falta ainda realizar?
Enquanto estiver viva vou querer realizar algo. Tenho um compromisso com minha arte e preciso me dedicar a ela e divulgá-la. Temos também, Paulo e eu, um trabalho grande na fundação (a Paulo Coelho & Christina Oiticica Foundation, fundada em 2014 e que reúne o acervo artístico do casal). Somos ligados também ao Instituto Inhá Chica (com sede em Minas Gerais), que desenvolve todo um trabalho social importante. Vou querer realizar coisas relacionadas à arte, à Natureza e aos trabalhos sociais. Tenho no mundo uma função artística e social.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e reprodução/internet (imagem)





