A última terça-feira (18) foi puxada para Diogo Vilella. O ator começou o dia às voltas com providências relacionadas à exumação dos corpos dos pais e, ao longo do dia, recebeu com pesar as notícias das mortes de Laura Cardoso e, algumas horas depois, a de Glória Menezes. Diogo e Glória trabalharam juntos pela primeira vez na novela “Guerra dos sexos”, exibida pela TV Globo em 1983. Na trama, ele vivia Carlos Henrique, o Kiko, filho de Roberta Leone, personagem de Glória.
Os atores só voltariam a trabalhar juntos 17 anos depois – e num projeto arrebatador. Glória confiou ao ator a direção de “Jornada de um poema”, peça estrelada por ela no ano 2000 e pela qual ganharia seu único prêmio por um trabalho no teatro.
— Sou duro na queda e não sou de chorar, mas ao receber a notícia da morte da Glória não me contive e me debulhei em lágrimas – revela Diogo ao NEW MAG, apontando para o peso que o dia de ontem teve para ele: — Perder num mesmo dia Laura Cardoso e Glória Menezes, duas atrizes desse porte, é realmente algo incomum.
A amizade entre Diogo e Glória estreitou-se ao longo da novela. E, quando puderam trabalhar no teatro, Diogo confirmou as impressões deixadas pela colega: a de ser uma atriz plenamente dedicada ao ofício ao mesmo tempo em que era aberta às propostas trazidas por ele:
— Glória foi das atrizes mais estoicas que conheci. Ela tinha uma plenitude e um autocontrole de si impressionantes. Era disciplinada ao extremo e chegava nos ensaios com o texto todo decorado – recorda-se Diogo destacando que a amiga não era afeita a pruridos comuns às estrelas da TV: — Ela abraçou todas as ideias que trouxe para o espetáculo, sem impor restrições a absolutamente nada. Ela abraçava e bancava as coisas. Era uma atriz aberta à escuta do outro.

E à escuta de si própria. Partiu dela a ideia de ter Diogo na direção de “Jornada de um poema”, cujo título original é “Wit”, palavra que remete à sagacidade, e que acabou modificada no título da versão brasileira por sugestão do Diogo, como ele conta:
— Assistimos à peça em Nova York e optei por seguir uma linha diferente da montagem americana. A personagem era interpretada por uma atriz de feições alemãs, corpulenta e com o cabelo num corte reco nas laterais. Disse à Gloria que não enxergava na personagem aquele general (risos). A personagem era austera, por ser uma professora universitária com especialidade em John Donne, mas que tinha sutilezas por ser também uma pessoa solitária. Por isso a mudança no título. A peça tratava também da jornada daquela mulher, que enfrentava um câncer já no estágio 4.
Na época, Gloria raspou por completo a cabeça em prol da verossimilhança pedida. E o feito foi um prato cheio à imprensa. Glória incorporou bonés e chapéus ao vestuário e, bem humorada, dizia que quem quisesse vê-la careca que fosse ao teatro.
Acontece que a montagem reservava ao público uma cena arrebatadora. Ao final do espetáculo, a personagem morre e, ao som de um tema instrumental (“Era uma orquestra russa escolhida pelo Marcos Alvisi”), a equipe médica tenta reanima-la. Alheia ao burburinho da cena, Glória levanta-se e caminha para o proscênio. A música cresce e, diante da marca, livra-se da camisola e fica nua até o blackout final.
— Sabe que nunca falamos dessa nudez? Glória tinha 62 anos e fazia a cena com uma entrega impressionante. E isso tem a ver com o estoicismo que falei antes. Ela era uma artista entregue ao seu ofício e totalmente aberta às ideias – rememora Diogo.

Durante a preparação do espetáculo, a amizade estreitou-se mais. Um fato profissional quase colocou tudo a perder: concluído o trabalho, Diogo mergulhou de cabeça em “Hamlet”, realizando com a montagem um desejo que tinha como ator. O envolvimento no novo projeto fez com que não pudesse acompanhar o elenco em Portugal. O episódio leva o ator a fazer um mea culpa:
— Ela tinha mesmo razão para ficar aborrecida. O diretor precisa acompanhar os atores nessas primeiras apresentações. Nós, atores, precisamos do diretor.
O ruído foi dissipado quando Glória foi assistir a Diogo em “Cauby, uma paixão”, no qual o ator interpretou magistralmente um de nossos mais importantes atores: Cauby Peixoto (1931-2016).
— Nos abraçamos, choramos e rimos também da nossa briguinha. Ali, voltamos às boas – arremata Diogo, destacando outra qualidade da amiga: — Glória era aquele tipo de atriz que contribui para a qualidade do trabalho sem cobrar nada a mais por isso.
E a contribuição de Glória Menezes foi imensa – e imensurável.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagens)





