‘Não vivo uma vida de ilusões’

agosto 14, 2026

Benedita Casé Zerbini brilha no teatro, prepara-se para lançar filme e fala das lutas pessoais, da relação com a mãe, Regina Casé, e levanta a voz a favor da inclusão e contra o capacitismo

“É engraçado a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”. A frase foi proferida por Caetano Veloso em 1978 e refere-se aos fatores que levaram Maria Bethânia ao palco, seu habita natural em 1965. Benedita Casé Zerbini nasceu em 1989, 11 anos depois da fala de Caetano. Mas a frase vem muito bem a calhar quando se trata da atriz – e da força com que sua vida mudou. Quem a vê iluminar a cena em “Surda”, deduz que ela exerce o ofício desde sempre, mas não. A artista foi abraçando a carreira aos poucos, a partir do momento em que, após submeter-se a uma bateria de testes, foi aprovada para estrelar “90 decibéis”, filme de Fellipe Barbosa que chega às salas este ano. Insegura se daria conta do recado, Benedita ouviu da mãe, Regina Casé, o veredito: ninguém melhor do que ela “para acessar o lugar daqueles sentimentos”. No longa, sua personagem descobre uma deficiência auditiva progressiva que a leva a adaptar-se àquela condição. E o fato não tem nada de novo para a cidadã Benedita, que usa os sobrenomes dos pais (o artista visual Luiz Zerbini) no nome artístico. Ela é uma Pessoa com Deficiência (PCD). Discreta, graduou-se em Design Gráfico e labutou como pesquisadora na TV Globo. Mas a vida, essa danada, tratou de coloca-la sob os holofotes. Primeiramente como comunicadora, à frente do PCDPOD, e agora, aos 37 anos como atriz. E é como tal que ela arrebata o público que lota o Teatro Firjan Sesi (de onde despede-se nos dias 17 e 18 deste mês) para vê-la no solo, dirigido por Débora Lamm a partir do texto revelador de Júlia Spadaccini, também roteirista de “90 decibéis”. “A Júlia deixou de atuar por causa da surdez, e comigo o processo foi inverso: me tornei atriz por causa da surdez”, pontua Benedita nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir ela fala da reviravolta que sua vida deu (“Achava que não gostava de gente”), elenca as influências da família (ela é bisneta e neta de Ademar e de Geraldo Casé) e, neste ano de eleições, fala do caminho ainda necessário para o mundo tornar-se de fato inclusivo e da fé no futuro, corroborada pela relação com o filho, Brás. “Acredito num mundo com mais diálogo e interação”, Benedita Casé Zerbini chegou chegando. Abram-se as cortinas!

A peça trata de resiliência e também de adaptação. O ser humano adapta-se a tudo?

Sim, e a peça mostra isso de forma assertiva e com muita sensibilidade. O corpo encontra um jeito de se adaptar a tudo. E passamos a nos relacionar com o mundo e com as pessoas sob novas perspectivas, passamos a olhar para o mundo e para o outro de outra forma. A gente é capaz de se adaptar a tudo com certeza.

A peça resulta da junção de forças e sensibilidades entre você, Júlia e a Débora, mulheres muito potentes. Como foi trabalhar com elas?

Nosso encontro foi muito feliz. Com a Júlia eu havia trabalhado no filme e tinha já sido tocada por um trabalho muito bonito dela no teatro, com a peça “Meu corpo está aqui” (escrita por Julia e dirigida por Clara Kutner). Foi a primeira vez que vi o tema da deficiência sendo tratado sem assistencialismo e sem vitimização. Depois do filme, ela me disse que tinha um texto para teatro e queria que o lesse. Durante a leitura fui me dando conta de que era um monólogo. É isso mesmo?, perguntei, e ela me disse que não imaginava o texto sendo feito por outra pessoa que não eu. E aí veio a Débora, que Júlia estava doida para puxar para o projeto. A Débora trouxe sugestões muito ricas, como a de valorizar a leveza e o humor, além de soluções cênicas muito boas. O fato de o espetáculo ter a acessibilidade integrada também me deixa feliz. O resultado desse encontro foi muito bonito. A Júlia deixou de atuar por causa da surdez, e comigo o processo foi inverso: me tornei atriz por causa da surdez.

A mosca azul da interpretação te pegou de jeito?

Desde lá do set entendi que esse poderia ser também o meu lugar. E esse processo foi muito louco. Driblei durante um bom tempo todas as possibilidades de trabalhar de um modo geral com comunicação, mas não com audiovisual. Estudei Design Gráfico e cogitei trabalhar com animação. Gostava também de escrever. Queria na verdade ficar ali escondida, protegida pelo computador. Tudo isso foi uma fuga. A experiência à frente do PCDPOD foi fundamental para eu me posicionar e me entender como uma mulher com deficiência. Achava que não gostava de gente, mas vejo hoje que gosto muito de gente.

E veio o convite para o teste no cinema…

Que foi um susto! A primeira etapa do teste foi com uma leitura. Ali, o Fellipe (diretor do longa) me disse que eu era atriz. “Você pode não saber, mas é”, ele disse. E também que a escolha era minha e que esperava que fosse esse o meu caminho. Na medida em que fui avançando nas etapas, senti medo. Já no processo da preparação, me perguntava se daria conta daquilo. Fui ganhando autoconfiança. E fui para o teatro nessa onda. Mas me perguntei muitas vezes por que fui inventar de fazer isso (risos).

E seu nome artístico traz os sobrenomes da tua mãe e do teu pai…

E isso foi intencional. Durante um tempo usava apenas Benedita Zerbini, sem o Casé. Era assim no instagram e na Globo, onde trabalhei como pesquisadora. Tinha receio desse lance de nepobaby, que as pessoas achassem que eu estava ali por causa da minha mãe quando fui levada pelo Hernano Vianna…

Um antropólogo brilhante que colabora com diferentes artistas, inclusive com tua mãe…

Ele gostava disso de eu transitar por lugares diferentes e de sugerir a ele músicas e artistas que ele não conhecia. Eu sou aquela pessoa que pode estar hoje num pagode em Bento Ribeiro e, amanhã, no Copacabana Palace.

E como surgiu a iniciativa de ter os dois sobrenomes no nome artístico?

Surgiu em razão do filme. O Fellipe me perguntou como queria que meu nome aparecesse nos créditos e me veio então a ideia de homenagear os dois. Benedita já é um nome grande por ele mesmo, mas, mesmo assim, não tive receio de usar os dois sobrenomes. E isso fez também com que as pessoas me achassem mais facilmente no instagram. Elas me procuravam como Benedita Casé e eu estava lá  como Benedita Zerbini.

Ao falar na peça do Hefesto, você me lembrou sua mãe em Nardja Zulpério. Qual o primeiro registro que você tem da artista que ela é?

Em uma das temporadas do “Nardja” ela estava grávida (Benedita nasceu em 1989). Só vim a assistir à peça mais tarde. Mas uma música da peça ficou muito presente na minha infância…

“Dou banho ni mim/ Me visto bem bacana/ Penteio meu cabelo/ Me chamo de lindona…

Exatamente! Fui ninada ao som dessa música (risos). Numa época, assisti a um vídeo da peça junto com minha mãe. Até hoje falam com ela sobre essa peça. Quando era bem pequena, minha mãe me carregava para tudo que era lado: para o teatro, para o set, para a TV e eu bebi de tudo isso. Mas a lembrança mais marcante que tenho dela é no “Brasil Legal”. E lembro de acompanha-la nas viagens e tive, por isso, essa sorte: a de conhecer o Brasil a partir do olhar dela.

Qual foi a fala da tua mãe que te tranquilizou após ela te ver no palco?

Ela disse que parecia que eu fazia aquilo há 50 anos (risos). E disse que tenho um frescor e que isso é bonito de ver. E me explicou que os atores podem adquirir vícios na medida em que se aprimoram. Ela disse que há em mim uma naturalidade que parece que não estou atuando.

E, antes do teatro, ela te assistiu no cinema, no Festival do Rio…

Ali no Odeon foi a primeira vez que assistimos ao filme juntas. Durante a exibição, dava umas olhadas para ela de rabo de olho, atenta às reações e preocupada com o que estaria achando. Quando fui chamada para o teste não comentei nada com ela. Ela só soube quando eu estava na segunda fase. Ali, pedi dicas a ela. Lemos o roteiro, e ela me disse uma coisa encorajadora: que não se tratava de ter experiência ou técnica, mas de descobrir a verdade daquilo. E disse que ninguém melhor do que eu para acessar o lugar daqueles sentimentos. E isso foi muito importante para mim.

Teu avô, Geraldo Casé, foi importantíssimo para a TV. Como era lidar com ele?

Antes, então, temos de falar do Ademar Casé, de quem sou bisneta. Ele foi pioneiro, um homem com uma contribuição imensa para o rádio, um cara com um senso de empreendedorismo enorme. Com ele convivi muito pouco. Pelo meu avô eu era apaixonada. Ele era divertidíssimo e inteligentíssimo. As pessoas me falam histórias dele até hoje. E acho que vem dele esse traço que minha mãe tem, de ser acolhedora, de gostar de festa. Acho que ela bebe muito nessa fonte, pela forma de levar a vida e de não se intimidar se precisar inventar um jeito diferente de fazer as coisas.

Ainda é comum demonstrações de capacitismo disfarçadas de gentileza. A linha entre elas é tênue?

Muito. E ela é difícil de ser percebida. O capacitismo tem vários níveis. Ele pode ser escancarado, vir numa ofensa, ou ser sutil e até passar despercebido. Uma vez ouvi que eu ficava mais bonita sem o aparelho da surdez. A intenção poderia ser a de me elogiar, mas o resultado foi uma demonstração de capacitismo. Quando esse nome começou a ser difundido, teve gente reclamando que estava surgindo mais um nome, que era mimimi… É importante darmos nomes às coisas. Quando elas não têm nome fica mais difícil de entendê-las. E corremos o risco de que sejam banalizadas. O capacitismo pode ser demonstrado também na forma de um elogio muito exagerado, por você ter vencido um obstáculo. A vida de todo mundo é feita de batalhas e de situações que precisam ser superadas.

Teremos eleições este ano. Estamos evoluindo quando o assunto são relacionados à acessibilidade e inclusão?

Acho que sim. Hoje vemos esses festivais de música todos com intérpretes de libras e isso demonstra um avanço. Mas a desinformação ainda é grande. Agora, uma medida inclusiva não tem que ser adotada porque tem de ser, por que há uma obrigação. As pessoas precisam se envolver e se informar mais sobre esses recursos. Uma tradução simultânea é adotada por que e para quem? Temos essas respostas? Incluir não é só instalar uma rampa de acesso ou um piso tátil. Tenho uma amiga que diz que inclusão não é só corrimão. Não é um favor que se faz. O interesse pela inclusão tem de ser genuíno.

E não pode ser algo de fachada…

De jeito nenhum. Vemos empresas colocando PCDs nos seus quadros. As perguntas que precisam ser respondidas são: essas pessoas participam de fato das decisões? Suas opiniões são ouvidas? O cargo que ocupam lhes dá algum poder? O número de pessoas com algum tipo de surdez no mundo é imenso, mas as que entendem a comunicação por libras são poucas. Falamos isso na peça, inclusive. Não há no cinema e no streaming legendas para pessoas surdas e isso é um absurdo! Se é para falar é para falar com todo mundo, sem ninguém ser colocado no lugar do café com leite.

Acha possível o Brás conhecer um país plenamente inclusivo?

Acho que sim. Sou muito otimista e acredito num futuro melhor apesar de os tempos serem desanimadores. Sou esperançosa, mas não vivo uma vida de ilusões. Há um conservadorismo que cresce em vários aspectos e luto muito contra isso. Acho que a educação e a informação são os maiores trunfos para a transformação. Falo com meu filho de forma franca e espero que ele haja da mesma forma com os amigos dele. Acredito numa nova geração com uma percepção melhor do mundo. Ver como o Brás age me enche de esperança. Acredito num mundo com mais diálogo e interação.

O que é mais libertador para você hoje?

O processo do teatro tem sido muito libertador e transformador para mim. Ver o teatro cheio, como tenho visto, e na última segunda-feira, numa noite de chuva, no Centro da cidade, é algo muito significativo para mim. E todas aquelas pessoas estão ali interessadas em ouvir o que você tem a dizer. São pessoas entregues à escuta, e isso é muito bonito. O palco é um lugar onde esqueço de tudo e onde mergulho de cabeça.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e reprodução/internet (imagem)

 

 

MAIS LIDAS

Posts recentes

Um Brasil que chora

Joaquim Falcão, da Academia Brasileira de Letras, prestigia João Carlos Cochlar em lançamento no Rio de Janeiro

O Malandro no palco outra vez!

José Loreto estrela nova montagem de “Ópera do Malandro” e atrai boa parte do elenco de “Quem ama cuida” à sessão especial

Chique do último!

A turma fashion do Rio de Janeiro prestigia mostra que corrobora o quão visionária é a moda brasileira