“Este show é feito a todas as mulheres que vivem neste país”. Com esta frase, Simone saudou o público que, na noite da última sexta-feira (07), lotou – apesar de o alerta de ventania – o Vivo Rio na estreia carioca de “Que mulher é essa?”, novo show da artista. A fala foi proferida após a cantora abrir a noite com “Se você pensa” (Roberto/Erasmo Carlos), numa levada bem grouveada, seguida por “Petúnia Resedá” (Gonzaguinha), toada com pegada roqueira extraída do álbum “Cigarra” (1978) e culminando numa versão mais light (e jazzy) de “Velha roupa colorida”, de Belchior (1946-2017).
No espetáculo, Simone, seu diretor artístico, o estilista Ronaldo Fraga, e a diretora musical, a cantora e compositora Ana Frango Elétrico (de quem ela interpreta “Mulher, homem, bicho”), elencam um repertório no qual a resiliência e a força femininas são a tônica. E, com isso, resgatam e ampliam a proposta trazida pela cantora no álbum “É melhor ser” (2013), no qual a Cigarra gravou somente temas de compositoras – algumas delas presentes no novo espetáculo, coimo Marina Lima (com “Fullgás”), Sueli Costa (1944-2023) e Rita Lee (1947-2023).
E, feita a supracitada fala da artista, o show segue com “Face a face” (Sueli Costa/Cacaso), canção-título do álbum lançado pela cantora em 1977 (e um dos mais relevantes da sua discografia). E, em seguida, a primeira grande surpresa da noite: um tema que há décadas ela não revisitava. A canção em questão é “Morena” (Dalto), presente no álbum que marcou, em 1973, a estreia fonográfica da artista.
O samba, sobre uma moça impedida de sair de casa (e de exibir sua exuberância) devido à chuva que castiga a cidade, vem ao encontro da proposta do show, que segue com outro samba, “Embarcação” (Francis Hime/Chico Buarque), que levou Simone a saudar a presença de Francis, na fila do gargarejo em mesa que trazia ainda as cantoras Olívia Hime e Leila Pinheiro.

A apresentação segue com mais uma surpresa: “Quando eu te conheci” (Dona Onete), numa leitura mais suavizada do bolero lançado pela compositora em “Banzeiro” (2016). Sucessos também não faltam, e Simone brinda o público com “Sob medida” (Chico Buarque), calorosamente aplaudida já na introdução. E o mesmo se dá com “Jura secreta” (Sueli Costa/Abel Silva), apresentada após “Migalhas” (Erasmo Carlos).
Há entre estas, porém, aquele que pode ser apontado como o primeiro ponto alto do show: “Yolanda” (e, sim, com ‘y’). O tema, já muito manjado nos shows da artista – e gravado por ela duas vezes nos anos 1980 e regravado em “Sou eu”, de 1993 – foi cantado no idioma original e não na versão feita por Chico Buarque. E foi a primeira vez que, segundo apurado por NEW MAG, Simone o fez em pouco mais de cinco décadas de carreira.
O segundo ponto alto da apresentação ficou com um tema interpretado também pela primeira vez – e com o qual ela homenageia aquela que foi uma das nossas maiores cantoras: Gal Costa (1945-2022). Em “Baby” (Caetano Veloso), Simone acompanha-se ao violão num raro momento em que abre mão do suporte da banda (excelente) formada por Chico Lira (teclados), Giordano Bruno (baixo), Felipe Coimbra (guitarra) e Vitor Cabral (bateria). O número remeteu a outro momento antológico da artista: o que ela, em dezembro de 1979 (e com a ditadura nos estertores) interpretou, também ao violão, “Pra não dizer que não falei de flores (Caminhando)”, de Geraldo Vandré.
Além de Gal, outra perda lamentada pela Cigarra no roteiro é a de Lô Borges (1952-2025). O compositor – e um dos artífices do Clube da Esquina – é celebrado com “Tudo o que você podia ser” (esta com Marcio Borges). A homenagem é feita após Simone interpretar pela primeira vez “Cor de rosa choque”, raio x musical da força e da delicadeza femininas feito por Rita Lee e por Roberto de Carvalho. O número, um medley com “Bem me quer”, também da dupla, arrebatou o público também pelo solo de Coimbra.

O show aproxima-se do fim e daquele que é o seu terceiro ponto alto: “Quando eu estiver cantando” (Cazuza/João Rebouças). O tema, interpretado recentemente pela cantora em evento no Rio de Janeiro, cresceu em interpretação em que a artista valorizou versos como “Porque meu canto é para quem me ama”.
O show reservou para o bis seu momento mais arrebatador. E ele ficou com “Maria, Maria” (Milton Nascimento/Fernando Brant). Libelo pela força feminina que Simone incorpora a seu repertório a partir de 1979, o tema surpreende por trazer, no seu arremate, homenagens a grandes mulheres brasileiras, das artes à política.
Entre os nomes, atrizes como Fernanda Montenegro, Marília Pêra (1943-2015) e Leila Diniz (1945-1972), escritoras como Nélida Pinõn (1937-2022), Lygia Fagundes Telles (1918-2022) e Conceição Evaristo e mulheres progressistas como Eunice Paiva (1932-2018), Benedita da Silva, Érika Hilton e a ministra Carmen Lúcia, do STF. À lista foram incorporadas ainda artistas presentes à estreia como Zélia Duncan e Sandra Pêra.
A força de Simone está no seu canto – forte e encorpado, burilado ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à música. Está também na sua presença cênica, que ocupa o palco na sua plenitude. E está também em jogar luz sobre tantas outras mulheres, muitas delas suas companheiras de geração, que fazem de seus legados gritos pela liberdade.
Esta mesma liberdade que, como cantado por Simone no bis, abre as asas sobre nós. E que assim continue.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Ricardo Nunes e Leo Uliana (imagens)







