‘O Brasil precisa conhecer o Brasil’

agosto 7, 2026

Halder Gomes prepara-se para lançar “O Shaolin do Sertão 2” e fala sobre resiliência, independência e da barra que foi realizar "Cine Hollywood"

Se o cinema brasileiro aprendeu a olhar para além do eixo Rio-São Paulo e a gargalhar com o humor genuíno e afiado do Nordeste, boa parte dessa revolução atende pelo nome de Halder Gomes. Terra de mestres do riso como Chico Anysio (1931-2012), Renato Aragão e Tom Cavalcante , o Ceará encontrou no cineasta um dedicado contador de histórias — realizador que transformou o “cearencês”, o amor pelas artes marciais e a paixão pelo cinema em fenômenos de bilheteria e crítica. Dez anos após o público se apaixonar por Aluízio Lee em “O Shaolin do Sertão”, Halder atende aos apelos diários das ruas e traz de volta esse universo na sequência “O Shaolin do Sertão 2 – A voadora 360º”, que chega ao cinemas no dia 20 deste mês. Desta vez, o tempo passou — tanto na vida real quanto na ficção —, e o protagonista retorna falido e distante da glória, precisando se reinventar na dor e no riso. Reunindo um elenco poderoso que mistura atores e lutadores, o longa é mais uma prova da habilidade do diretor para costurar heterogeneidade e carisma. Nesta entrevista exclusiva ao NEW MAG, Halder passa a limpo sua trajetória de resistência: desde a época em que ouvia que seus projetos eram “inviáveis” para o mercado até a consagração de obras universais como “Cine Holliúdy”. Ele ainda reflete sobre a descentralização do audiovisual brasileiro, a responsabilidade do humor em sua terra natal e revela seus próximos passos — que incluem a continuação do premiado longa “Vermelho Monet”.

O trailer de O Shaolin do Sertão 2 – A Voadora 360º mostra um Aluízio Lee falido e cheio de problemas, longe da glória conquistada no primeiro filme. O que motivou você a trazer esse personagem de volta em um momento de decadência em vez de mantê-lo no topo?

“O Shaolin do Sertão” foi um filme que teve muita repercussão. Os personagens desse universo, e o Aluízio Lee em especial, criaram muito carisma, muita comoção e deixaram muita saudade. Desde o sucesso do primeiro filme, não tem um dia em Fortaleza em que eu saia na rua, converse com as pessoas e não escute a pergunta: “Quando vai ter o dois?”. Passei dez anos ouvindo isso. Agora, poder dizer que existe uma data de estreia é uma mistura de alívio com satisfação. Na história também se passaram, coincidentemente, dez anos. O maior transformador de tudo, em qualquer situação, é o tempo. Para o bem ou para o mal, ele determina o caminho de tudo. Para o Aluízio Lee e toda a sua trupe, o tempo mexeu com todos eles nesses dez anos. No primeiro filme, ele termina em alta: vence a luta e fica com a academia cheia de alunos. Agora começa em uma situação preocupante, falido, enfrentando problemas financeiros, de relacionamento e do cotidiano. Só resta, para um cara como ele, que tem a luta como fundamento de tudo, voltar a lutar. É uma história de superação, com muita comédia, aventura e emoção, acima de tudo. É um filme engraçadíssimo que retorna ao universo de “O Shaolin do Sertão” dez anos depois. 

O elenco do novo longa traz nomes de peso como Marcelo Serrado e Priscila Fantin, e até mesmo o lutador Lyoto Machida. Como foi fazer essa mistura de talentos de diferentes vertentes no longa?

Os universos que crio são compostos por uma heterogeneidade muito grande na construção dos personagens. É muito comum para mim trabalhar em filmes com atores, não atores e atletas que acabam se tornando atores. Isso faz parte da minha trajetória. O que há de novo neste filme é a forma de unir esses novos personagens à trupe que já existia. Eles precisavam agregar ao que essa nova história pede. São personagens que exigiam atores com muito talento e capacidade de chegar, se inserir e transformar essa história. Por isso reunimos nomes de peso como Priscila Fantin, Marcelo Serrado e Lyoto Machida, uma lenda das artes marciais que valoriza ainda mais esse universo.

Historicamente, o cinema brasileiro de prestígio costuma ser muito associado ao eixo Rio-São Paulo. Como você enxerga a força desse movimento atual de descentralização da produção nacional?

Considero esse momento muito relevante, especialmente para o Nordeste, porque durante muito tempo a região foi excluída das principais pautas do país. Não falo apenas do cinema. Com o passar dos anos, essas políticas começaram a mudar, descentralizando o acesso aos recursos. Isso possibilitou que histórias incríveis do Nordeste chegassem às telas. Venho do sucesso de um programa de filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, ainda na gestão de Gilberto Gil. Esse edital trouxe para o cenário nacional “O som ao redor”, “Cine Holliúdy” e tantos outros filmes premiados. Era um programa que descentralizava o mercado e o eixo Rio-São Paulo, permitindo que realizadores de outras regiões também tivessem acesso aos recursos para contar suas histórias. O sucesso da minha trajetória e tudo o que veio depois nasce justamente dessa semente, quando essa descentralização se tornou possível. Hoje vemos a revelação de um país gigantesco, que tem muito mais histórias para contar do que apenas aquelas produzidas no Sudeste. Não digo isso por um olhar bairrista. O Brasil é muito grande, muito diverso, e o cinema é o maior espelho de qualquer país que se propõe a ser grande. Também é sua maior vitrine e sua principal forma de visibilidade. E é isso o que está acontecendo.

O primeiro “Cine Holliúdy” precisou de legendas em algumas regiões do país para que o público entendesse o “cearencês”. Você sentiu alguma resistência ou preconceito do mercado no Sudeste no início da sua carreira por conta dessa forte identidade regional?

O próprio “Cine Holliúdy” é a maior provocação disso tudo: o Brasil precisa conhecer o Brasil. Quando o filme ainda era apenas um roteiro, ninguém queria entrar porque dizia: “Como é possível fazer um filme que conta esse microcosmo do sertão do Ceará na década de 1970?”. Quando o filme ficou pronto, ouviam-se perguntas como: “Como você vai lançar um filme cujo protagonista não é conhecido?”. Eu respondia: “Jesus também era desconhecido quando começou”. Havia uma série de fatores que tentavam desqualificar o projeto, mas o filme foi provando seu valor. “Cine Holliúdy” só foi possível porque existiu esse edital que citei anteriormente. O olhar do edital era isento das intenções do mercado. Para o mercado, era um filme inviável; para o edital, artisticamente, era um filme viável. Eu tinha convicção do que queria propor. Por mais que muitas pessoas fossem míopes para enxergar o potencial daquela história, ela falava sobre superação e amor ao cinema, temas universais. Basta olhar porque “Cinema Paradiso” é um filme universal. Ele dialoga exatamente da mesma forma. Por que “Cine Holliúdy” não seria? Felizmente houve um distribuidor que enxergou diferentemente, a Downtown Filmes, e tornou possível que o filme se transformasse no que foi. A partir daí vieram todos os desdobramentos. Depois o próprio mercado entendeu que o filme realmente era universal. Vieram a série na TV Globo, as grandes audiências e tudo o que aconteceu em seguida. Acredito muito nas histórias que saem do lugar do previsível. Normalmente elas estão nesses lugares mais intimistas, nesses lugares menores, seja dentro de uma grande cidade, seja em pequenas comunidades. São histórias muito particulares, e é justamente nelas que está o ineditismo.

Sua filmografia é amplamente dominada pela comédia, com raras exceções como o drama “As mães de Chico Xavier” e “Vermelho Monet”. Por que você faz a opção de focar na comédia em vez de investir em dramas tradicionais?

Gosto muito da comédia. Convivo nesse universo e enxergo a comédia com um olhar muito particular, mas também com a responsabilidade desse legado, do que é ser da terra de Chico Anysio e de que tipo de comédia preciso fazer para representar esse lugar. Não só Chico, mas também Renato Aragão, Tom Cavalcante e tanta gente. Isso me dá muito prazer. Dentro da comédia consigo contar qualquer coisa. Quando olhamos, por exemplo, para “Bem-vinda a Quixeramobim”, estou falando de choques culturais. O filme tem muito a dizer sobre o Brasil de várias formas. Quando vou para “Cine Holliúdy”, estou resgatando um cinema que existiu e foi muito popular no Brasil até meados da década de 1980. Quando faço “O Shaolin do Sertão”, estou falando do universo dos lutadores, com o qual me identifico por também ter sido lutador. Através da comédia consigo contar muitos dramas inseridos nessas histórias com um alcance muito popular. Acho que consigo falar para mais gente quando entro nesse universo da comédia. A comédia caminha muito próxima do drama. Basta um pequeno ajuste de tom para que qualquer comédia vire drama, e vice-versa.

Você começou no cinema independente com “Sunland Heat”, em 2004, lançado direto em home vídeo. Quais as maiores dificuldades enfrentadas naquela época que foram superadas nos seus trabalhos atuais?

A maior dificuldade era fazer as pessoas entenderem que eu estava à frente do meu tempo. Esse filme tinha comédia, ação, acontecia nos Estados Unidos e no Brasil, tinha muitas lutas, algo que o cinema brasileiro ainda não fazia. Era um recorte do universo de uma Fortaleza cosmopolita, que saía da história do sertão para contar uma história urbana, em coprodução. Hoje, quando olhamos para Fortaleza, vemos uma cidade que se tornou um hub da aviação, com rotas internacionais para vários países. É o lugar por onde chega toda a fibra óptica da Europa e dos Estados Unidos para ser distribuída ao restante do continente. É uma cidade cosmopolita, a mais rica do Nordeste. Também vemos a luta e as artes marciais fazendo parte dos filmes brasileiros de maneira recorrente. Naquela época isso não existia. Era algo quase utópico quando falávamos desse universo. Filmei “Sunland Heat” em 1999 e só consegui lançá-lo em 2004. Isso faz essa história voltar ainda mais no tempo. O maior desafio era provar que aquilo que eu estava propondo como cinema tinha seu lugar ao sol. Hoje a prova é justamente que eu estava apostando no caminho certo. 

Depois de tantos anos de carreira, existe algum projeto que você ainda considera um sonho, seja um gênero que nunca explorou ou uma história que ainda espera a oportunidade para contar?

Do ponto de vista do sonho, posso dizer que vivo o meu sonho. Amo o que faço com paixão. Acordo todos os dias com alegria e gratidão por estar fazendo o que faço. As pessoas comentam muito que sou muito feliz no set, e isso é verdade, porque gosto muito do meu trabalho e lutei muito para chegar até aqui. Do ponto de vista artístico, existe uma história que gostaria muito de contar. “Vermelho Monet” é o primeiro de uma trilogia das cores primárias. O filme trata do conflito existencial do artista, da valorização da sua obra em vida e após a morte, além do universo da falsificação. Agora estou desenvolvendo “Azul Vermeer”, que mergulha no universo da restauração de obras de arte. É uma história que vai unir a Amsterdã contemporânea ao sertão do Ceará do século XVII, durante o período da colonização holandesa. Esse é o projeto no qual estou mais focado neste momento, correndo em paralelo aos projetos de comédia, que naturalmente acabam girando mais rápido. Esse é o filme que mais desejo realizar. Depois dele virá o terceiro longa da trilogia, dedicado ao amarelo, completando as cores primárias.

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e reprodução / Internet (imagem)

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