A máquina do tempo não é uma peça de ficção. Ela existe e tem a forma de um disco voador. E, na noite do último sábado (25), ao sobrevoar o Allianz Park, em São Paulo, a mágica aconteceu: um público de 50 mil pessoas, de 40+ em sua maioria, voltou a ser criança. Baixinhos, melhor dizendo. E eles estavam ali em conluio para reverenciar sua Rainha e um patrimônio imaterial da TV e da cultura pop brasileiras: Xuxa Meneghel.
Sim, a nave levantou voo e fez jus à promessa embutida no título de “O último voo da nave”, turnê realizada pela 30e que marca a despedida de Xuxa dos palcos. Quando o disco voador pink sobrevoou o estádio, a quatro metros de altura do público, havia ali o prenúncio de que a noite seria antológica. E foi.
Minutos antes de o bólido de 18m por 50m de largura cruzar o céu, a imagem de uma Xuxa com ares futuristas surgiu no imenso painel de LED do cenário. E trazia um recado de que, ali, não haveria espaço à intolerância e variantes como homofobia, sexismo e o ódio. A plateia delirou – e iria delirar muito mais.

Assim que a nave pousou, Xuxa desceu, num truque cênico e sustentada por cabos, ao palco. Os acordes iniciais de “Doce mel” (Claudio Rabello/Renato Corrêa) mostravam que a nostalgia estava garantida. “O Xou da Xuxa começou”, bradou a apresentadora colocando a multidão para cantar e dançar ao som de “Hoje é dia de folia” (Nando Cordel) e “Abecedário da Xuxa” (César Costa Filho e Ronaldo Monteiro de Souza).
Saindo do Planeta Xuxa para o mundo real – e já colapsado pelos efeitos das Mudanças Climáticas – as bandeiras ambientais levantadas há tempos pela ex-modelo não poderiam estar de fora. E fizeram-se presentes em temas oitentistas como “Planeta Terra” (Carlão/Victor Cezar) e “Boto Rosa” (Ronaldo Monteiro de Souza), libelos pela vida gravados por Xuxa quando as catástrofes de agora pareciam ainda distantes.
Desde sua estreia na TV à frente do “Clube da criança”, exibido pelo hoje extinta TV Manchete (a ida para a Globo aconteceu em 1986), lá se vão mais de 40 anos. E, ao longo dessas mais de quatro décadas, Xuxa nunca parou no tempo. Ela mudou, acompanhando a evolução dos seus Baixinhos, em atrações como “Planeta Xuxa” (cujo tema de abertura também levantou a galera) e “Xuxa Park”.

Todas essas facetas não ficaram de fora do roteiro, dividido em seis movimentos. E um deles foi justamente o “Xuxa Só para Baixinhos” (XSPB), quando a estrela voltou aos primórdios e renovou seu público. E veio desta franquia um set de sete temas, aberto com “Cinco Patinhos” e encerrado com “Parabéns” e que teve direito à entrada em cena do Txutxucão.
A festa seguiu com clássicos como “É de chocolate” (Michael Sullivan/Paulo Massadas) e “Eu tô feliz”(Cid Guerreiro/Pretinha). Esta foi a deixa para outro momento arrasa-quarteirão. Algumas remanescentes das Paquitas, as célebres ajudantes de palco da apresentadora, ocuparam o palco e mandaram ver com “Fada Madrinha (É tão bom)” (Tito Costa/Borges Machado). E, àquela altura, ninguém estava nem aí para as demonstrações de ressentimentos que tomaram as redes sociais às vésperas da estreia.
O baile seguiu com “Libera geral” (Claudio Matta/Alvaro Socci) e “Marquei um X” (Fafy Siqueira/Sarah Benchimol). Com “Arco-íris”(Anna Penido, Migeul, Michael Sullivan e Paulo Massadas), uma imensa bandeira do arco-íris, símbolo das conquistas LGBTQIA+, surgiu no palco. E o público já arrebatado emocionou-se, com famílias (das tradicionais às novas) abraçando-se e confraternizando.

“Ilariê” (Cid Guerreiro/Dito/Ceinha) e “Beijinho, beijinho” (Kiko Zambianchi) mostravam que, com a licença de Xuxa, estava chegando a hora de o programa terminar…. E quem partiria não seria Mickey Mouse, mas outro ícone pop: a nave, aquela que povoou por décadas o imaginário de crianças de diferentes nacionalidades.
Quem esperava uma apresentação com ares de Festa Ploc high-tech, encontrou uma superprodução que não deixa em nada a desejar aos de outras rainhas da cena pop oitentista como – e por que não? – Madonna.
A mágica aconteceu. Com “O último voo da nave” Xuxa marcou um golaço. Afinal, o xis já está cravado nos corações dos seus fãs. E, sim, voltar no tempo pode ser possível.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Moriva Filmes (imagens)





