“O homem é fruto do meio”. A frase é proferida por Gabriel Chalita com conhecimento de causa. O escritor e apresentador já era multitarefa muito antes de o termo entrar na linguagem corrente. Graduado em Direito pela PUC, Chalita quase tornou-se padre. Os dons artísticos levaram-no a deixar o Seminário e a conciliar carreiras que, de forma concomitante, levaram-no a áreas do saber que foram da literatura ao magistério, passando ainda pelo teatro (isso mesmo) e pela política, onde chefiou a pasta da Educação em duas esferas do Poder Executivo em São Paulo: no governo de Geraldo Alckmin (entre 2002 e 2005) e na do então prefeito Fernando Haddad (2013-2016). Afastado dos cargos públicos (“Não existem mais projetos de governo”), Chalita abriu outras ferentes de trabalho. Ele comanda a “Arena dos Saberes”, um dos programas de entrevistas mais interessantes da TV, e estende sua atuação aos palcos, em duas vertentes. A verve de (excelente) intérprete de poemas é aplaudida em “O pianista e o poeta”, no qual, sob a direção de Jorge Takla, atua juntamente com o maestro João Carlos Martins. O escritor assina também a dramaturgia de “Poemas”, espetáculo pungente estrelado por André Torquato e Marcos Pitombo. “As vidas humanas são interessantes como um todo”, avalia ele, por telefone, nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, Chalita celebra os aprendizados trazidos pelas novas experiências, fala do desencanto com a política, opina sobre o jornalismo de hoje e sobre o futuro da criação literária nesses tempos de IA, lamenta o descaso do país com seus poetas e é categórico: “A poesia te convida a entrar num lugar de elevação”. Lugar este onde ele já se encontra, aliás.
Vejo a peça como um libelo à sutileza, à delicadeza e à escuta. A maneira como lidamos hoje com o tempo te aflige?
Sim, me aflige. Sou um educador e um fato alarmante está no aumento de suicídios entre os jovens. Isso está relacionado a fatores como angústia, ansiedade e também em como eles estão sendo tratados em casa. Pais que só elogiam os filhos cometem uma irresponsabilidade imensa que afetará o caráter e a autoestima deles. Os seres humanos não são máquinas. O mundo não é habitado somente por super-heróis.
O texto é pleno de imagens poéticas, mas a ideia de escrevê-lo surgiu a partir do relato sobre um abuso sofrido por uma mulher, não foi?
Sim, essa mulher foi abusada pelo próprio padrasto e um dos fatores que mais me comoveram foi quando ela disse que a mãe não havia acreditado nela. Ela tinha na época 12 anos. Isso infelizmente acontece em muitos lares brasileiros. Ali, decidi que escreveria sobre abuso, mas que trataria do tema com muita delicadeza. Por isso, a figura da mãe, na peça, tem uma postura acolhedora…
Ainda que o texto não tenha um conflito tradicionalmente dramático, há ali dualidades muito pertinentes entre os dois personagens…
Que podem ser dois, mas que podem ser também desdobramentos de um mesmo ser. O ser humano é capaz de destruir seu semelhante, mas pode também salvá-lo e ter papel decisivo na sua formação. Por isso a figura da tia que tira o riscado no disco que o sobrinho gosta de ouvir. Dia desses, estava em São Paulo e reparei numa mulher, já bem idosa, atravessando a rua. Ela estava na faixa, e o sinal, aberto para ela. Passou um homem numa bicicleta que, ao se aproximar, gritou dando um susto nela. Eu a abracei e ela se desculpou dizendo que estava distraída. Ela não estava errada e poderia ter sido poupada do susto. Por que as pessoas causam tanta dor umas às outras? São os pequenos gestos que fazem a diferença na vida.
Em plena febre dos podcasts e dos influenciadores, você resgata o formato de entrevistas pautado pelo preparo e pela leveza. Precisamos de mais talk e menos show?
Um dos propósitos da atração é o de fazer daquele espaço um lugar onde os convidados se sintam respeitados. Se recebo um ator é porque assisti antes à peça dele. A Fernanda Torres foi ao programa e se surpreendeu com o fato de eu conhecer seus livros. Disse que era o mínimo se me propus a entrevistá-la. Todo mundo tem algo de interessante a dizer, e acho importante que o entrevistado se sinta acolhido. A vida precisa de mais escuta e de menos espetacularização.
Mas não é o que a gente vê por aí, né?
Bibi Ferreira ficava irritadíssima com o despreparo da imprensa. Quando pediam a ela um resumo do que ela estava fazendo, ela dizia que não dava para resumir um trabalho que levou meses sendo preparado. Certa vez, numa entrevista, a Lygia Fagundes Telles perguntou se a repórter conhecia algum dos seus livros. A jornalista disse que não, mas que adorava os artigos dela. Aí a Lygia falou: “Mas não escrevo artigo nenhum” (risos).
Algum entrevistador te inspirou em especial?
O Jô (Soares) tinha todo um cuidado com a pesquisa no começo, mas depois isso foi deixado de lado. A Marília Gabriela tinha essa capacidade de aliar descontração, profundidade e conhecimento. Lembro de uma vez em que fui ao programa dela e até sobre minha tese em semiótica ela falou. “Sua vida me interessa”, ela me disse. As vidas humanas são interessantes como um todo.
Você tem o dom da oratória e faz uso dele nas palestras. Acontece que, no recital em que atua ao lado do maestro João Carlos Martins, você revela-se um senhor intérprete de poesia. A culpada é Maria Bethânia?
É a Bethânia (risos)! Ela é extraordinária dizendo poesia. Estudei teatro ali entre meus 17 e 19 anos. E tive oportunidade de atuar também, sendo dirigido pelo Walmor Chagas. Depois, quase atuei numa peça com texto do Frei Betto, mas a política não deixou. Walmor dizia para não desperdiçar as palavras. Levo comigo até hoje os ensinamentos dele.
É tocante o entrosamento entre você e o maestro em cena. Diz o ditado que não fazemos mais amigos depois dos 50, mas vocês provam o contrário…
Ele gosta muito de mim, e eu dele. E tudo isso começou uns três anos atrás. Ele me convidou para participar de um recital em que os participantes não eram exatamente artistas e pediu para eu falar um poema meu. Acabei fazendo um poema inspirado pela resiliência dele e isso o emocionou bastante. Tempos depois, ele me sugeriu de fazermos um recital. Fui enrolando até que escolhi os poemas e disse para pensarmos num ator. Fizemos uma leitura, e ele disse que tinha de ser eu. Aí uma senhora perguntou se iria decorar os textos porque, segundo ela, depois dos 50 ninguém decora mais nada. Aí decorei de birra mesmo. João fica nervoso antes de entrar em cena e espanta-se de eu não ficar. Mas no dia em que a Fernanda (Montenegro) nos assistiu, nós dois ficamos nervosos (risos).
E ela ficou muito tocada, não?
Na hora em que eu falo o texto da Simone de Beauvoir, fiz questão de olhar para ela por ela ter falado aquelas mesmas palavras no teatro. A Carmen (empresária da atriz) sorria e Fernanda estava emocionada. Depois, recebi dela uma mensagem linda na qual ela dizia que meu lugar é no palco. Muito generoso da parte dela.
Neide Archanjo, poeta da qual gostamos, morreu abandonada pela imprensa e pelas editoras. O Brasil é a verdadeira Sociedade dos Poetas Mortos?
A poesia da Neide era de uma clareza e de uma profundidade imensas. Há um verso dela que me toca e que diz assim: “E estando, me faltas” (do livro “As Marinhas”, da autora). Certa vez disse a ela que eles valiam como uma tese de doutorado. O Brasil tem essa questão com muitos dos seus poetas. Fizemos o recital em Manaus e falo o “Estatuto do homem”, do Thiago de Mello. Fiquei espantado de ver que muita gente ali não sabia quem ele era. Isso é desolador no Brasil…
Para muitos poetas, a poesia está na esfera da inutilidade. Afinal, se fosse útil, seria um utilitário e não um acontecimento. Por que a poesia te fascina tanto?
A poesia dá um sabor diferenciado à vida. Ela convida o ser humano a entrar num lugar de elevação. E tem, por isso, todo um poder de encantamento. Ela te dá a oportunidade de você sair de você e olhar a vida e o mundo sob outras perspectivas. Claro que tem dias em que fico como aquele eu lírico do poema da Adélia Prado, em que ela enxerga pedra como pedra mesmo (risos). Mas um dos propósitos da poesia é o de trazer um estado de elevação à vida e ao ser humano.
A Amazon restringiu a produção de obras escritas através de IA. Estamos vivendo a consagração dos embusteiros?
Existem dois fatores importantes do ponto de vista educacional. A educação só se dá de forma processual, e a experiência com IA não substitui isso. Quando você pega algo pronto, essa dinâmica não acontece. Indo para o campo da escrita, ela é uma experiência processual e afetiva. Um escritor não é um escritor sem afeto. Não crucifico a tecnologia, mas a dimensão da criatividade não pode ser atrofiada pela IA.
Você foi secretário de Educação do Fernando Haddad e, posteriormente, seu vice. O Haddad passa a impressão de ser convicto e sereno. Essa imagem procede?
Procede. Sou muito grato aos dois governadores dos quais fui secretário e incluo aqui o Alckmin. Os dois primam pela correção e pelo compromisso com a causa pública. O Alckmin vive no mesmo apartamento há anos e mantém o sítio que foi do pai dele. E teve a dignidade de abrir mão da aposentadoria como deputado. Já o Haddad, quando perdeu a eleição (à Presidência, em 2018), no dia seguinte estava na sala de aula trabalhando. Minha experiência com o Montoro (Franco Montoro, governador de São Paulo entre 1983 e 87) foi muito válida também. Ele dizia que eu iria dar palestras e viajar o mundo e estava mesmo certo.
Você já passou por câmara municipal, parlamento, secretarias. Com o que de mais sórdido precisou lidar na política?
Diria que com a falta de ética e com a ilicitude de alguns. Eu era secretário de Educação e, certa vez, tentaram me empurrar um programa de ensino de inglês em um mês. Pessoa alguma aprende inglês em um mês, argumentei. E aí foram se queixar aos caciques dos partidos, dizendo que eu não facilitava. Não mesmo! A corrupção é inerente na política e ganha uma força maior no Brasil. E ela não está restrita apenas ao meio político. No meio empresarial você vê também gente querendo obter vantagens. O homem é produto do meio, e é muito difícil você preservar sua integridade na política, mas é possível.
O que falta à política de hoje?
Sonhos, talvez. Os políticos com algum idealismo foram debandando, voltando às carreiras de antes. Não existem mais projetos de governo. Perpetuar-se no poder é a meta. Um sujeito como Anísio Teixeira, que criou a primeira escola em tempo integral, é inimaginável nos dias de hoje.
Você reúne em si diferentes formas de conhecimento: o das leis, o da filosofia, da literatura e os da religião. Você vislumbra um país com mais igualdade?
Você quer uma resposta esperançosa ou realista?
A mais sincera…
Sonho com isso e planto essas sementes nos lugares por onde passei. Não importa o tempo, mas o que você pretende fazer. Nos primeiros seis meses na Fecomércio, onde atuo hoje, fui um dos responsáveis por levar o Sesc ao Retiro dos Artistas. E as medidas implementadas ali fizeram com que os artistas passassem a precisar menos de médicos. Fiz um trabalho com profissionais da Rede D’Or e um dos pontos levantados foi o de valorizar as identidades das pessoas. Eles deixaram de se referir aos doentes como o paciente do leito 12 e passaram a chama-los pelos nomes. As mudanças podem ser simples e precisam começar pelo nosso entorno. Elas não virão só de governos e precisam vir da sociedade também.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e reprodução/internet (imagem)





