‘Pinto pessoas para celebrá-las’

julho 2, 2026

Discreto como a mãe, Marisa Monte, Mano Wladimir abre mostra e fala sobre sua busca nas artes e celebra Suassuna e Luiz Zerbini

Ele tinha tudo para enveredar pela música, se tivesse seguido os passos dos pais. Mas outras paixão e vocação falaram mais alto. Filho da cantora Marisa Monte e do músico Pedro Bernardes, Mano Wladimir segue um caminho também autoral nas artes, mas longe dos palcos e dos estúdios. No caso deste, o estúdio em questão é o ateliê. É de lá que vêm as obras reunidas agora em sua segunda individual no Rio de Janeiro.

A mostra será inaugurada no sábado (04), na Galeria Lado B, Centro da cidade, e traz pinturas, serigrafias e esculturas selecionadas por ele juntamente com a crítica e historiadora Bruna Costa, curadora da exposição. Algumas das telas trazem registros de antigos botequins do Rio, e salta aos olhos a fidedignidade exibida pelo artista, que falou com NEW MAG sobre seu processo de trabalho e as influências recebidas – e elas não são poucas.

—  Não tenho neurose com o realismo. O quadro que faço traz minha perspectiva sobre aquele tema. Não tenho interesse de fazer uma cópia foto-realista daquilo que estou retratando, mas, em se tratando do retrato de uma realidade, sinto que existe um compromisso com aquilo que estou retratando. Tento manter um respeito e uma precisão em alguns dos temas por conta desse compromisso – avalia Mano, reiterando ainda: — Afinal, não se trata de algo que esteja inventando na minha cabeça. Aquilo existe e, a partir do momento em que decido retratar, há uma cobrança maior se comparado a algo puramente inventado. Isso vem de forma natural levando-se em conta esse processo.

Algumas das pinturas selecionadas são retratos. Um em especial cala mais fundo para o artista: o de Carlos Monte, seu avô por parte da mãe. Na tela, ele é visto usando o uniforme da Portela, escola da qual foi diretor. A escolha da indumentária não foi aleatória, como Mano faz questão de frisar:

— Escolhi retratar meu avô, principalmente vestido com o uniforme da Portela, num dia em que visitamos o barracão, porque tenho muito orgulho dele. Sempre que visitamos a escola, vejo o amor que as pessoas têm por ele e a gratidão que têm pelo trabalho que ele fez, em relação à preservação da memória também. Ele escreveu o livro sobre a Velha Guarda e está escrevendo agora sobre a Nova Velha Guarda. Ele sabe os nomes de todo mundo da geração dele. Quis retratá-lo dentro daquele contexto porque isso me dá bastante orgulho.

Retrato de Carlos Monte, seu avô e ex-diretor da Portela: “Orgulho dele”

Graduado em Design pela PUC Rio, Mano complementou seus estudos em importantes instituições como a Escola de Artes Visuais (EAV), no Parque Lage, Rio de Janeiro, e na Escola de Artes Visuais de Nova York. E coloca os artistas que admira um panteão que abarca desde Jean-Batiste Debret (1768-1848) a nomes como Van Gogh (1853-1890) e Hieronymus Boch, que viveu na transição entre a Idade Média e a Renascença.

—  Gosto muito dos artistas que se propuseram a retratar esse mundo marginal, esse mundo dos sonhos, principalmente nesse contexto da cultura brasileira – pontua o jovem, apontando para dois mestres da arte brasileira: — Tenho muitas referências da arte popular brasileira, sobretudo dos artistas que não tinham obsessão pela tridimensionalidade, como, por exemplo, Heitor dos Prazeres, e Caribé, de cujas pinturas a óleo gosto muito.

O encantamento pelas artes visuais é certamente um dos elos com sua mãe, que comumente conta com a colaboração de nomes do segmento nas capas de seus álbuns ou na criação dos cenários de shows. É possível notar no estilo do jovem influências também contemporâneas e, em especial, de um nome egresso da chamada Geração 80: o de Luiz Zerbini. A percepção é corroborada por Mano sem pestanejar:

— Zerbini é uma referência enorme. Gosto muito da diversidade do trabalho dele, da técnica e da exploração visual que ele faz do Brasil. A Ana Elisa Egreja é também uma baita referência para mim.

Uma das pinturas de Mano que tem em Luiz Zerbini uma de suas influências

Seu olhar para as artes é amplo, e Mano fala com serenidade das próprias convicções, sem parecer pedante em se tratando de um jovem. Entre as peças selecionadas para a mostra estão também carrancas, numa demonstração de que a arte genuinamente brasileira está no seu radar, como ele aponta:

— O que mais permeia minha imaginação atualmente é o Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna. Não me considero um braço desse movimento por entender seu caráter regional e seu contexto, seja o do próprio Ariano ou dos artistas ligados a ele, mas bebo muito das bases teórica e visual que eles construíram. E compartilho com eles dessa busca por referências menos óbvias por serem, muitas vezes, bem antigas.

Antiguidade e contemporaneidade estão em pés de igualdade para Mano Wladimir. Caretice e arrogância seria desdenhar de uma delas, e careta é algo que ele não é. Mano sabe bem que, como na canção dos Titãs, riquezas são diferenças. E quer celebrá-las para que fulgurem.

—  Para mim, a preservação da memória é uma luta contra a morte, uma luta contra o apagamento. Tem coisas que precisam ser celebradas para que continuem acesas e sendo passadas adiante. Pinto as pessoas para celebrá-las e testemunhar a grandeza delas, essa grandeza que fica escondida no dia a dia – arremata.

Grandeza que este jovem artista traz consigo. E não poderia ser diferente em se tratando da cepa de onde ele vem.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagens)

O artista por ele mesmo: o autorretrato está entre as obras selecionadas

 

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