Eles já foram Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Cinco anos depois, adotam apenas o prenome da banda. Ou simplesmente Kid como escancarado na capa do LP homônimo lançado em 1989. Grupo que instaurou uma sonoridade personalíssima ao rock nacional a partir do álbum “Seu espião”(1984), a trinca optou por pendurar os instrumentos (naquele expediente ao menos) em 2016, quando os trabalhos foram oficialmente encerrados.
Paula Toller (vocal), Bruno Fortunato (guitarras) e George Israel (sax) tinham, respectivamente, 22, 28 e 24 anos quando tiraram o país para dançar naquele início dos anos 1980. Agora sessentões, os amigos voltaram a levar um som. A reunião dá-se na turnê “Eu tive um sonho”, realizada pela Live Nation. E o público que, na noite da última sexta-feira (12) lotou a Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, não precisou se beliscar para acreditar no que via. O sonho era real e, nele, Paula, Bruno e George demonstraram que continuam entrosados e afinados.
Era noite de Dia dos Namorados, e o trânsito comumente conturbado às sextas ficou caótico. E, uma hora depois do previsto, o grupo entrou no palco ao som de “Lágrimas e chuva” numa abertura que contou ainda com “Nada tanto assim”.
— Preparamos para vocês um repertório… É uma atrás da outra. Sextou! – anunciou Paula colocando a galera para cantar junto hits como “No meio da rua (Disco voador)”, “Educação sentimental II” e “Na rua, na chuva, na fazenda”, sucesso de Hildon incorporado pelo grupo a partir do “Acústico MTV”.
Paula fez jus ao prometido e, de fato, o roteiro – composto por 29 canções, uma delas instrumental – elencou os grandes sucessos da banda, com os dos primeiros discos guardados para o bis. E isso ficou evidente a partir de temas como “Só penso em você” seguida por “Alice (Não me escreva)” – executada em clima new wave com Paula despindo o blaser do conjunto vermelho que usava – e “Amanhã é 23”, cantada a plenos pulmões pela plateia.
Ali ficou claro que a turnê tem o propósito de entreter, no melhor estilo “Diversão garantida”. Tanto que apenas três canções românticas estão no set. “Nada por mim” (Paula e Herbert Vianna) não poderia estar de fora. A balada, já refinada, foi arrematada ainda com andamento e arranjos no estilo bossa-jazz. O tema serviu de respiro num roteiro que seguiu com “Deus (apareça na televisão)” e uma digníssima representante das canções esquecidas nos lados B dos LPs: “Peito aberto”, a mais votada pelos internautas.

Sim, a proposta do show é a de entreter e ela se sustenta sobre três alicerces: o do apuro estético (com o piso do palco emulando uma pista de dança em estilo art déco), visual (com imagens bem escolhidas como as das obras de Roy Lichtenstein que abrem o show) e musical. O trio é muito bem amparado por uma banda coesa na qual Adal Fonseca (bateria) diz a que veio e Pedro Dias (baixo) e Ge Fonseca (teclado e vocais) destacam-se.
“Eu tive um sonho”, canção-título da turnê, abre o segundo ato do espetáculo, com Paula voltando ao palco, após tema instrumental, num look dourado, cujo brilho é corroborado pelos acessórios usados nas mãos e nos braços. E tome de hits como “Vou embora”, “Garotos”, “Seu espião” e “Nada sei”.
Naquele momento o conluio entre público e artistas estava plenamente estabelecido, com a vocalista classificando a noite como “Maravilhosa”. O set seguiu com “Todo meu ouro” e “Te amo pra sempre”. Os arremates ficaram com “Grand Hotel” (ai deles se não a tocassem), usada por Paula para saudar os “namorados, namoridos e namoridas”, e “Fixação”.
O bis é aberto com “Como eu quero”, com uma bela sacada: a primeira estrofe é cantada pelo público, com Paula (agora num look prata) assumindo os vocais dali em diante. À canção romântica seguem-se dois medleys: “Os outros/Fórmula do amor (esta em clima jovem-guardista devido ao belo arranjo de sopros);”Por que não eu/ Pintura íntima” num fechamento com chave de (todo o) ouro – e do mais alto quilate.
Treze anos passaram-se entre 2013, quando o Kid encerrou a turnê dos seus 30 anos, e este ano, quando o grupo volta à estrada. O espetáculo apresentado no Rio de Janeiro mostrou que este longo hiato não arrefeceu a performance deste que é um dos grupos mais originais do BRock. O Kid Abelha voou alto e tem tudo para manter a altitude nas demais praças aonde irá. Voar e tocar é com eles. É o que eles devem fazer.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Patrick Rocha (imagens)






