Em feitio de oração

maio 17, 2026

António Zambujo arrebata público carioca com show calcado em novo álbum e pautado pelo apuro musical

Desde que António Zambujo fez sua estreia fonográfica com “Meu fado” (2002), a pecha de que ele havia revolucionado o estilo passou a ser comumente atribuída ao artista português. Tal constatação apoia-se numa de suas características mais latentes: seu canto está bem mais próximo do minimalismo de Chet Baker (1929-1988) e de João Gilberto (1931-2019) do que do estilo tonitruante de fadistas como Amália Rodrigues (1920-1999) e Fernando Farinha (1928-1988).

Ao longo de pouco mais de duas décadas de carreira, Zambujo mostrou em diferentes trabalhos (um deles dedicado integralmente a parte do cancioneiro de Chico Buarque) familiaridade com a música brasileira. A ponto de tomá-la para si e, assim, também subvertê-la. E ele dá, mais uma vez, provas disso em seu mais recente trabalho, “Oração ao tempo”, cujo repertório, composto por algumas canções brasileiras, foi apresentado, na noite do último sábado (16), no Circo Voador, Rio de Janeiro, oitava das 12 cidades pelas quais passa com a turnê, iniciada no começo do mês.

E o cantor demonstrou as credenciais para o merecer cidadania brasileira numa apresentação pautada pela precisão musical (dele e dos seis excelentes músicos que o acompanham) e pela nobreza do seu canto, apurado e limpo.

O primeiro dos mais emocionantes dos números foi quando o cantor brindou o público com a faixa-título do novo trabalho. Lançada originalmente no LP “Cinema transcendental” (1979) de Caetano Veloso (ao lado de quem Zambujo divide os vocais da sua gravação), a música foi precedida pela fala de “Poética I”, de Vinicius de Moraes (1913-1980). Tal junção já havia sido feita por Maria Bethânia no show “Tempo, tempo, tempo, tempo”, mas ganhou na voz de Zambujo nova robustez a partir do acento lusitano da sua dicção. E também pelo fato de um poema suscitar interpretações diversas e cada uma delas personalíssima.

Diogo Zambujo, que abriu o show, com seu pai

Se Zmbujo traz no seu canto ecos de Chet e de João, ele também traz eflúvios de Mário Reis (1907-1981), o mais bossanovista dos cantores da Era de Ouro do Rádio. E isso ficou claro em dois momentos primorosos da apresentação: primeiramente com “Foi a noite” (parceria pré-bossa de Tom Jobim e Newton Mendonça) e, mais adiante, com “Lábios que beijei” (Leonel Azevedo/J. Cascata). O tom minimalista dos números acabou afetado pela balbúrdia (pena) das casas no entorno do Circo. Eles certamente surtirão melhor efeito em outras casas de espetáculos.

Tal interferência não distraiu a plateia. O público estava de fato atento e aberto às propostas do cantor, chamado num dado momento de “Delícia” por uma fã mais afoita. “Delícia”, respondeu ele, estendendo o elogio àquele encontro como um todo.

E a noite ficou ainda mais saborosa quando Chico Chico adentrou o palco. E o dueto começou com outra do Caetano, “Cajuína”, também do supracitado álbum de 1979, e seguiu com “Injuriado”, o jocoso samba de Chico Buarque lançado em “As cidades” (1998) e maledicentemente atribuído, na época, ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. A partir de então, Zambujo deixou o convidado à vontade para dizer a que veio, e o filho de Cássia Eller (1962-2001) não se fez de rogado. Acompanhando-se ao violão, ele atacou de “O tempo nunca mais firmou”, sua parceria com Sal Pessoa. E arrematou (e arrebatou) cantando à capella “Berradêro”, de Chico César, dando ao tema divisões e coloraturas diferentes das imortalizadas pelo autor no CD “Aos vivos” (1995) e por Zizi Possi no álbum “Mais simples”, lançado no ano seguinte.

O repertório do set fora combinado por eles ali mesmo, nos bastidores, poucas horas antes de o show começar e parecia minuciosamente ensaiado. O canto vigoroso de Chico Chico aliou-se ao timbre delicado de Zambujo num entrosamento contagiante.

Chico Chico em participação arrebatadora

A noite seguiu comais temas do novo álbum e foi arrematada por mais uma dobradinha entre poema e canção. Após recitar “Nº 9, 5º Frente”, o cantor seguiu com “Contradança”, marcada pela delicadeza do piano de João Salcedo.

Salcedo é, aliás, um dos grandes talentos arrebanhados por Zambujo para a empreitada, num conjunto onde brilham também os sopros de João Moreira e José Conde e a guitarra portuguesa de Bernardo Couto, apontado pelo cantor como “o guitarrista mais gato de Portugal”.

Um conluio de talentos numa apresentação pautada pelo apuro técnico e musical. E o público assistiu a tudo em contrição como requer uma oração. Não uma prece qualquer, mas “Oração ao tempo”. António Zambujo é tão português e ao mesmo tempo, tempo, tempo, tempo tão brasileiro. Brasileiríssimo e tão nosso também.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Renan Prado (imagens)

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