A Loba lacrou legal

maio 3, 2026

Shakira faz História no Rio de Janeiro com show vibrante e pleno de participações num manifesto à latinidade

Um espetáculo pautado pelo apuro técnico, visual e musical. Um libelo à resiliência feminina. Uma noite mais do que antológica; histórica. Todas as definições cabem para o show apresentado por Shakira no projeto Todo mundo no Rio, que, na noite do último sábado (02) chegou, na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, à sua terceira edição na cidade.

Com a turnê calcada em seu álbum mais recente, “Las mujeres ya no lloran”, a estrela voltou à cidade onde, em fevereiro de 2025, estreou a tour, já histórica por aglutinar o maior público de uma artista latina. O roteiro original foi engrandecido por números que contaram com participações de (exatamente nesta ordem) Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo. E, tudo somado, o resultado foi o de um culto apoteótico à latinidade.

Shakira certamente superou as divas que a precederam no projeto, realizado pela Bonus Track em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro. Se, em 2024, Madonna aboliu a banda amparando seu canto no playback, a colombiana disse que a veio ao cantar acompanhando-se, em momentos distintos, ao violão e nas guitarras – uma delas carregada nos brilhos. Se Lady Gaga pecou por apresentar um show conceitual com roteiro falho, Shakira optou por uma apresentação elencada por números e vinhetas contagiantes.

O espetáculo começou não no palco, de 1.500m² (o maior já montado para a iniciativa). Às 22h53m, com a multidão já ansiosa por ver a cantora, esperada para entrar no palco às 21h45m em razão da transmissão televisiva, drones tomaram o céu formando uma loba, alcunha atribuída à artista, e reproduzindo em seguida os olhos da diva. A exibição aquietou os ânimos e, 12 minutos depois, às 23h05, o show teve de fato início, com “La fuerte” seguida de “Girl like me”, com a diva saudando o público entre os números.

Se não é aconselhado contar vitória antes de o jogo terminar, um prenúncio de que a noite seria auspiciosa foi dado nas músicas seguintes. “Las de la intuición” seguida pelo hit “Estoy aqui” colocaram a multidão para dançar e cantar a plenos pulmões. A plateia estava a partir de então dominada.

Shakira e dois de seus músicos no palco-passarela

E Shakira podia fazer o que bem quisesse – e fez. Guitarra em punho, o hard rock rolou com “Empire” seguida por “Inevitable”. E Shakira deu então vasão às facetas sonoras que fazem dela uma diva pop vibrante. Do rock ela foi à salsa, passando pela rumba e pelo reggaeton até ao tasquim, numa menção à sua ancestralidade oriental. O sortimento foi variado e em nada propenso a dispersões.

— Nós mulheres, cada vez que caímos, levantamos um pouco mais sábias, um pouco mais fortes e mais resilientes – reconheceu a artista em bom português após performance teatral em “Te felicito”, na qual ela contracena com um bailarino caracterizado como um boneco e diante de um cenário com ares de Mundo Barbie.

O show seguiu sem perder o tom contestador. E ele permeou números como “Hips don’t  lie”, o hit “Loca” e “Chantaje”, com direito a participação virtual do rapper Maluma, culminando em “Soltera”, popularizada pela trilha sonora de “Vale tudo”. Shakira iniciou outra de suas falas-petardo precisando situar o videomaker sobre onde encontra-la no imenso palco:

— Aqui! – clamou, iniciando discurso de sororidade às mães -solo brasileiras: — Neste país são 20 milhões de mães solteiras. Eu sou uma delas – pontuou em alusão a seus dois filhos, vistos nos telões minutos antes em “Acróstico”.

As imagens de indígenas brasileiros de diferentes etnias causaram furor no público. Sim, eram os primeiros acordes de “Choka, choka”, faixa de “Equilibrium”, novo álbum de Anitta, que deixou a plateia loca, loca, loca ao adentrar o palco segundos antes de ser anunciada pela anfitriã.

— Ser sua amiga é um presente – declarou a brasileira, nesta que foi sua segunda participação no projeto uma vez que, em 2024, foi a convidada de Madonna em “Vogue”.

Shakira e Caetano cantam “O Leãozinho”

Anitta abriu então os sets voltados à relação de Shakira com nossa música. E ela teve em Caetano Veloso sua mais perfeita tradução. Ela e o baiano cantaram juntos “O Leãozinho”, que, segundo declarado ali, era a berceuse para a estrela ninar seus filhos.  — Não posso acreditar. Sou sua fã — derreteu-se a rainha.

E por falar em soberania, o palco receberia ainda aquela que é a líder suprema dentre os timbres femininos ali presentes: Maria Bethânia. A Loba e a Abelha Rainha cantaram “O que é, o que é”, de Gonzaguinha (1945-1991), acompanhadas, como antecipado aqui, pela bateria da Unidos da Tijuca. E, num momento sublime, Bethânia teve as madeixas acarinhadas pela brisa que soprava, fazendo jus aos versos de outra canção, “Amiga dos ventos”, de Gilberto Gil.

A noite reservava ainda fortes emoções. E elas foram confirmadas quando Ivete Sangalo foi chamada à cena para outro dueto antológico, desta vez em “País tropical”, de Jorge Ben Jor, que devia estar a poucos metros dali, uma vez que é morador do Belmond Copacabana Palace. Em seguida, “Whenever, whenever” mostravam que a festa se aproximava do fim (aaaahhhh…).

Ao longo de pouco mais de duas horas de apresentação, Shakira demonstrou as credenciais que permitem a ela ser uma das mais vibrantes artistas da sua geração. E, em maior escala, da cena pop internacional. Mesmo sem superar o público de Lady Gaga, o show da artista foi o mais contagiante já realizado pelo Todo mundo no Rio. Shakira é inigualável. Madonna e Gaga têm agora razões palpáveis para reconhecer isso.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e foto Caetano) e Marcos Hermes (imagens show)

Um dos momentos do primoroso espetáculo

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