“Uma vida inteira pra plantar/ E pra colher luz”. Os versos de “Partiu”, segunda faixa de “Ópera Grunkie”, álbum mais recente de Marina Lima, podem ser lidos sob dois vieses. E ambos falam muito da relação da artista com o tempo. Ao mesmo tempo (olha ele aí de novo) em que servem como um balanço da sua trajetória, eles traduzem bem o impulso criativo de uma artista que, recém-chegada aos 70 anos, não quer saber de deitar nos louros de uma trajetória artística que já soma 47 anos.
As duas vertentes são a tônica da nova turnê da artista, “Marina Lima 70”, apresentada no Rio de Janeiro na noite do último sábado (25). Se em seu trabalho mais recente de estúdio, Marina transita entre a dor e o prazer, esses dois extremos são levados também ao palco, numa superprodução cênica em nada aquém aos shows de astros internacionais do pop.
O espetáculo mistura bem sucessos da artista a temas do novo projeto (sete ao todo, com três deles servindo de vinhetas visuais) num roteiro em que Marina e o diretor Candé Salles abrem brechas a homenagens a companheiros de geração da artista como Lô Borges (1952-2025), como antecipado aqui, e Lulu Santos.
O caráter de celebração tomou conta da Fundição Progresso horas antes de Marina adentrar o palco. Os trabalhos foram abertos pela cantora Letrux que comandou as carrapetas em dois sets nos quais demonstrou seu apuro musical ao reverenciar nomes como Fernanda Abreu (“A noite”), David Bowie (“Rebel, rebel”), Maria Bethânia e Alice Caymmi (numa mashup de “Iansã”) e, claro, Madonna e sua sempre contagiante “Hung up”.

A festa seguiu com o duo Troá, formado por Manuella Terra (bateria) e Carolina Mathias (baixo e teclados), esta em dupla jornada uma vez que integra a banda de Marina. A dupla desfiou temas autorais de forte carga pop e rendeu tributos a Jards Macalé (1943-2025) e a Angela Ro Ro (1949-2025), azeitando bem a plateia para a atração principal da noite.
E, fazendo jus ao previsto, Marina adentrou o palco às 23h, botando o público que, àquela altura, lotava a Fundição para cantar com ela “Pra começar” (1986), abrindo assim um set com 27 números, sendo um deles, “Nada por mim” (Herbert Vianna e Paula Toller), feito sem ensaio como um afago a Ney Matogrosso, também intérprete da canção e que assistia ao show no mesmo local em que estava também Caetano Veloso.
— Esse show é em homenagem a Alvin L – declarou Marina logo de cara, e a menção ao amigo e parceiro recém-falecido não ficaria restrita a esta fala, mas também a “Eu não sei dançar”, uma das canções finais do show.
Outro importante tributo é prestado àquele que é seu principal parceiro musical, o irmão-poeta Antonio Cícero (1945-2024). Ele faz-se presente já com “À Francesa”, sua parceria de Claudio Zolli, e segue merecidamente homenageado com “Perda”, apresentada numa vídeo-vinheta muitíssimo aplaudida pelo público, e com “Meu poeta”, ambas de “Ópera Grunkie”.
E Cícero faz-se também presente em outros momentos do show. Afinal são dele as letras de clássicos como “Fullgás” (precedida por “Quem sabe isso quer dizer amor”, de Lô e Marcio Borges), “Virgem” e “Acontecimentos”.

— A partida do Cícero fez de tudo mais urgente – reconheceu ela em texto lido numa folha de papel, constatando em seguida: — Me expresso pelas ondas da música.
E assim ela singra o mar caudaloso do seu cancioneiro. E tem entre os tripulantes craques como Giovani Bizzotto (violões), Gustavo Corsi (guitarra), Arthur Kunz (bateria) e Daniel Sanjines (teclados), além, é claro, da supracitada Carol Mathias.
E Marina ainda tira da manga surpresas. Uma delas é “Condição” (1986), de Lulu Santos. A canção havia sido incluída por ela no show calcado no CD “O chamado”, que estreou no hoje extinto Canecão, e é resgatada por ela num número vibrante. Outra tem um quê de pegadinha: depois de ouvirmos a introdução de “Your latest creek”, do Dire Straits, a banda ataca com “Virgem”, embasbacando o público.
E o baile segue em altíssimo astral, culminando em “Mesmo que seja eu” (Roberto e Erasmo Carlos), “Nem luxo, nem lixo” (Rita Lee/ Roberto de Carvalho) e “Uma noite e 1/2″ (Renato Rocket).
Marina lamenta perdas recentes sem autocomiseração. E vai para o palco munida deste mesmo propósito – com lágrimas e sangue nos olhos. Aos 70 anos, Marina Lima fulgura como grande dama da cena pop nacional. Assim ela faz há 47 anos. E brilha de joia e não de fantasia.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Paulo Aragonn (imagens)







