‘Não foi dinheiro público’

janeiro 18, 2026

Lucy Barreto fala sobre financiamento de "O agente secreto" e das chances do filme na corrida pelo Oscar

Ainda em meio à corrida de “O agente secreto” rumo ao Oscar, a produtora Lucy Barreto faz um alerta direto: o cinema brasileiro não é financiado com dinheiro público. Em entrevista exclusiva ao NEW MAG, ela rebate comentários feitos em telejornais e redes sociais que atribuíram ao filme dirigido por Kleber Mendonça Filho um suposto aporte de R$ 7,5 milhões do orçamento público.

— Isso não foi dinheiro público. O cinema brasileiro não é alimentado com dinheiro público, é alimentado pelo próprio cinema — afirma Lucy.

Segundo ela, os recursos vêm da Condecine — Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional — uma taxa paga por distribuidores, exibidores, produtoras, operadoras e emissoras de TV.

— É uma contribuição criada ainda no governo Geisel, pelo (economista e ex-assessor do Ministério da Fazenda) João Paulo do Reis Veloso. Nada sai do orçamento do público — reforça.

A produtora explica que esses valores são destinados ao Fundo Setorial do Audiovisual, administrado pela Ancine, que realiza editais ao longo do ano.

— O problema é que, por causa da burocracia, a Ancine não consegue distribuir todo o dinheiro. Em geral, distribui cerca de um bilhão. O resto volta para o governo — diz.

Para Lucy, o discurso de que o cinema “vive de verba pública” inverte a lógica dos fatos:

— Já disse isso em outra oportunidade e repito: o governo é que mama nas tetas do cinema brasileiro.

Sobre as chances de “O agente secreto” na corrida pela estatueta do Oscar, ela se mostra otimista. Na última semana o longa venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional e Melhor Ator de Drama com Wagner Moura.

— Tem muita chance, sim. É um filme muito interessante, contado de uma maneira talentosíssima, com muito humor, apesar de ser uma história trágica — afirma a produtora que aponta Wagner como forte candidato: — Sem dúvida, melhor ator. E melhor filme internacional também.

A produtora ainda destaca o bom momento do audiovisual brasileiro no exterior, com títulos selecionados para festivais internacionais. Entre eles, “Feito pipa”, com Lázaro Ramos, em Berlim, e “Manas”, de Mariana Brennand, candidato ao Goya.

Apesar do reconhecimento internacional, Lucy relata dificuldades atuais para viabilizar novos projetos. À frente da tradicional produtora LC Barreto, ela cita parcerias assinadas com a China, incluindo um longa de animação sobre a Floresta Amazônica e uma série infantil protagonizada pelo mico-leão-dourado:

— Está tudo contratado, assinado na presença do Xi Jinping. Mesmo assim, estamos há um ano com dificuldade para conseguir a nossa parte do financiamento.

Segundo Lucy, o entrave está nas exigências recentes de políticas afirmativas nos editais.

— Estão privilegiando projetos com cotas específicas. Mas é animação. Como faz isso numa animação? — questiona.

Ainda assim, ela acredita na retomada das salas de cinema, impulsionada pelo mercado americano.

— Wall Street já entendeu que cinema dá retorno imediato. As salas vão voltar. E tudo que volta nos Estados Unidos, volta para o mundo.

Para Lucy Barreto, esclarecer a origem dos recursos e defender o cinema brasileiro é parte do seu trabalho.

— É sempre uma oportunidade de divulgar a verdade. Isso é importante para o cinema brasileiro — arremata.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

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