Um libelo sensível e tocante por um mundo inclusivo. Assim pode ser definido “90 decibéis”. E os aplausos efusivos com os quais o filme foi recebido no Festival do Rio, na noite do último sábado (04), tomaram a plateia ainda na cena final, quando os nomes dos atores – todos pessoas com deficiência (PCDs) – despontavam na tela culminando no de Benedita Casé Zerbini, protagonista do longa e merecidamente ovacionada.
Ela e a roteirista do filme, a também autora teatral Júlia Spadaccini são deficientes auditivas e, aliadas ao olhar sensível do diretor Felipe Barbosa (que perdera recentemente a mãe para uma doença degenerativa), encabeçam uma produção que presta um serviço de informação e de utilidade pública à população brasileira. E o filme estreia sob as bênçãos de dois importantes nomes da Cultura brasileira. Fernanda Montenegro e Caetano Veloso prestigiaram a sessão.
– Sou madrinha da Benedita e não poderia faltar. Estou aqui para aplaudi-la – declarou a grande dama do teatro brasileiro minutos antes de, sob os cuidados de Carmen, sua empresária e fiel escudeira, sentar-se ao lado de Caetano na plateia. – Sem dúvida nenhuma é um filme importante, e ela está numa hora de grande presença diante dela e diante do que ela pretende da vida dela.
A percepção de Fernanda não é em vão. Filha da atriz Regina Casé e do artista visual Luiz Zerbini (ambos presentes à sessão), Benedita tem de fato uma grande presença e ocupa a tela com a destreza dos vocacionados, indo da leveza à dramaticidade (e vice-versa) numa demonstração de equilíbrio entre a convicção e a entrega despudorada à personagem. Ela tem estrela.
E sua personagem é Ana, uma advogada bem-sucedida que é levada a defrontar-se com a progressão da perda auditiva. A saída é a de fazer uso de aparelhos, levando-a ao processo paulatino de adaptação àquele recurso e à própria vida, vida transformada a partir aceitação de ser ela uma PCD.
Em uma das muitas cenas tocantes, Ana indaga o filho pequeno sobre o fato de um de seus colegas do colégio, um menino com down, não estar na lista do seu aniversário. “É que ele não joga bola como a gente”, explica o menino sendo demovido pela mãe: “A sua mãe tem deficiência auditiva. Você gostaria de me ver excluída das coisas por isso?”
Àquela altura o público já estava enredado pela história de vida daquela mulher e pelas dos demais personagens, vividos por atores com algum tipo de deficiência, em maior ou menor grau, num elenco potente de coadjuvantes formado por nomes como o de Pedro Nechling (ele também deficiente auditivo) e Cléber Tolini, ator do solo “O Subnormal – Uma história de baixa visão” e que tornou-se mais conhecido a partir da sua atuação em “Todas as flores”. Ninguém está ali por acaso e todos brilham. E, como apregoou Caetano em uma de suas canções, gente é pra brilhar.
“90 decibéis” é uma produção cuidadosamente delicada e vibrante. Um filme que precisa ganhar as alas de cinema, as escolas, as TVs e, a partir delas, os lares do país.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação/ Festival do Rio (imagens)















