Eram dez e onze da noite quando o público que lotava a Praia de Copacabana ouviu as primeiras falas do vídeo que abre “Mayhem on the beach”, o aguardado show de Lady Gaga no Rio de Janeiro, “Esse é o manifesto do caos”, alertou a cantora que, minutos depois, surgiria diante do cenário – uma fachada em estilo clássico – vestida como uma monarca do século XVI e cuja imensa saia encobria a estrutura da qual sairiam seus bailarinos.
Intitulado “Of velvet & vice”, o primeiro ato foi aberto com “Bloody Mary” (daí o figurino quinhentista), do seu mais recente álbum, “Mayhem”, seguida pelo carro-chefe do novo projeto,”Abracadabra”, ao som da qual bailarinos e público dançaram com entusiasmo que marcaria outros momentos da apresentação,que seguiu com o sucesso “Judas”, “Scheibe” (da qual extrai o termo Mother Monster) culminando na nova “Garden of Eden”, cuja batida muito se aproxima do nosso funk.
Muito se falou em superação nos dias que precederam o show, numa comparação inevitável com o show de Madonna, um ano atrás. E o público presente superou o da Material Girl. Gaga levou àquelas areias mais de 2 milhões de pessoas segundo estimativa da RioTur, superando os 1,6 milão de Madonna. A noite foi também antológica para a estrela, cuja maior plateia foi a de 80 mil pessoas em Paris.

Ainda no quesito superação, uma pergunta precisa ser feita: a apresentação superou, do ponto de vista técnico e artístico, à de Madonna? Há uma premissa básica no segmento dos grandes espetáculos. Um show não se sustenta sem hits, as grandes videtes do espetáculo. E Gaga, aluna dileta de Prince (1958-2016) e Madonna, seguiu a cartilha incendiando o parcão com “Poker face”, um dos pontos altos da noite.
Mas num show são também necessárias o que, no teatro, chamam-se de cenas de ligação. Elas são importantes para o artista recuperar o fôlego. Num show, elas são vinhetas ou, mais comumente, projeções e evitam assim os buracos (ou barrigas) entre os números. Tal regra costuma ser infalível quando seguida à risca. E está aí o calcanhar de Aquiles do espetáculo.
O segundo e terceiros atos são entremeados por buracos, mesmo com sucessos como “Paparazzi” e “Alejandro”, entre as quais Gaga agradeceu ao público num discurso sincero e comovido. – Sinto-me sortuda e profundamente grata. Hoje,estamos fazendo história,mas ninguém faz história sozinho. Sem vocês, público incrível do Brasil, não teria este momento – reconheceu.
Ah, mas é um show teatral, dirão os fãs. Sim, e sob este viés, o show é suntuoso e um de seus pilares está na iluminação primorosa. Um espetáculo pode (e deve) ter um conceito ou ate mesmo ser um manifesto (Roger Waters é expert nisso), mas ele precisa estar bem amarrado. E Gaga fugiu à regra.

O show decola no quarto ato somente. E voa alto embalado por números como a emblemática “Born on this way” (outro ponto alto) seguida por “Blade of grass” culminando naquela que não poderia falatr: “Shallow”, canção-arrasa-quarteirão de “Nasce uam estrela”.
“Vanish into you” encerrou a sequência de atos e, após breve inervalo”, o grand finale dá-se com “Bad romance” arrematada por uma queima de fogos assistida pela artista e por seus bailarinos da passarela.
O show foi histórico? Sim. Arrebatador? Também. Impecável? Quase… Lady Gaga é de fato um monstro (ou Mathr Monster, como preferem seus fãs). E Madonna é, justiça seja feita, a Doutora Frankenstein – aquela que nenhuma de suas crias consegue superar.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Kevin Mazur\Getty Image (fotos show)





